ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de setembro de 2008
Gaudêncio Torquato 
Se os três tivessem
emprestado um pouco
mais de sua capacidade
à coisa pública, a
locomotiva nacional
teria corrido mais
depressa. E o trem
brasileiro se moveria
hoje com maior velocidade
Meados do segundo semestre de 1984. Tancredo Neves, candidato da Aliança Democrática à Presidência da República, aporta na Faculdade Cásper Líbero, por onde já passara o candidato Paulo Maluf para discorrer sobre seu plano de governo para o Brasil. Conduzido pelo amigo Olavo Setubal, levanta a platéia com a idéia de ''refundação da República''. Depois de ovacionado, um pequeno grupo de professores é convidado a acompanhar o candidato ao jantar num bistrô nas proximidades. Conversa animada, com o vozeirão de Setubal dominando o tom da mesa, o mineiro Tancredo parece não resistir ao cansaço no meio de perguntas que aguçam a sua atenção. De repente, fecha os olhos, pende a cabeça para baixo, deixando a boca entreaberta, em sinal de que caíra nos braços de Morfeu. Ao lado do banqueiro, ouço seu cochicho de barítono: ''Ele faz isso para avisar que é hora de ir embora. Mas não está dormindo''. De soslaio, percebo um leve sorriso nos lábios daquela raposa política, a sinalizar que ouvira, inclusive, a observação do amigo.
A historinha é o pano de fundo para realçar traços matreiros do homem que venceu Maluf, em 15 de janeiro de 1985, por ocasião da escolha indireta do presidente da República no colégio eleitoral, mas é também a lembrança singular de uma figura que deu enorme contribuição para consolidar o sistema financeiro nacional. A morte de Olavo Setubal propiciou relatos plurais sobre sua jornada, enaltecendo, sobretudo, a missão de construir um império financeiro e industrial. Pequeno destaque foi dado, porém, à sua vocação de homem público, aliás, interrompida abruptamente por conta das curvas que só a política consegue explicar. Prefeito de São Paulo entre 1975 e 1979, imprimiu a marca de uma administração séria, bem planejada e com vasto acervo de realizações. Pré-candidato pelo PFL ao governo de São Paulo em 1986, foi preterido pelo partido. Desgostoso, abandonou a carreira política. Naquele mesmo pleito, outro grande empresário, Antônio Ermírio de Moraes, viu-se atropelado por Orestes Quércia, eleito governador paulista no embalo do Plano Cruzado, que deu a vitória a 22 dos 23 candidatos do PMDB nos Estados.
Como teria sido o País se a locomotiva nacional tivesse sido governada por um desses dois ícones do empresariado brasileiro? Na pior das hipóteses, teriam impregnado a administração pública com princípios que se mostram eficazes no mundo dos negócios, como a racionalidade, a diminuição de cargas burocráticas, políticas de incentivo à produção, qualificação de quadros, investimento em tecnologia e pesquisa, impulso à educação, reequipamento da infra-estrutura técnica, enxugamento de massas paquidérmicas, integração de áreas e setores, drástico corte em despesas eleitoreiras e forte controle do balcão de distribuição de cargos pelas bancadas parlamentares. O ônus Brasil cederia lugar à equação custo-benefício. A troca faria enorme bem à Nação. Infelizmente, o destino afastou da vereda político-partidária dois perfis de empreendedores.
Dos tempos políticos de Setubal e Ermírio para cá, muita coisa mudou. O empresariado deixou a clássica postura reativa, passando a frequentar a vanguarda da política. Da condição de patrocinadores, empresários agora ensaiam passos mais frequentes em palanques, chegando a ocupar muitas cadeiras em plenários legislativos. Basta ver a atual representação congressual. A maior bancada informal do Congresso é a dos empresários, contabilizando cerca de 220 representantes ou 35% do Congresso.
O grande empresário se refugia, hoje, no topo da ''holding'' de seu grupo. Em seu lugar aparecem executivos na direção de entidades, alguns até pinçados da administração pública. Empresários pequenos e médios até se aventuram no comando de setores. Os grandes, com raras exceções, fogem da política. Não querem renunciar a valores da iniciativa privada ou se submeter a sacrifícios de ordem pessoal. Quando se provoca, por exemplo, um empresário como Jorge Gerdau sobre a missão pública que ainda o espera, ouve-se uma expressão de desencanto e o arremate incontestável: ''Passei da idade.''
Pode até ser que o futuro consiga atrair para a política figuras empreendedoras e de renomada reputação, como Antônio Ermírio, Olavo Setubal ou Jorge Gerdau, cujas palestras e conversas deixam transparecer sabedoria, cultura, conhecimento da realidade e, sobretudo, amor ao País. Se os três tivessem emprestado um pouco mais de sua capacidade à coisa pública, a locomotiva nacional teria corrido mais depressa. E, com certeza, o trem brasileiro se moveria hoje com maior velocidade.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da USP e consultor político em São Paulo


