ESPAÇO ABERTO
Medalhas e legado olímpico
Reginaldo Silva
Cerimônias impressionantes. Não era outro o objetivo dos chineses se não impressionar o mundo em espetáculos que demonstrassem força, poder e beleza. Gastaram US$ 39,6 bilhões para nos apresentar uma potência - não apenas esportiva. Mas os anfitriões tinham a obrigação de usar melhor essas cifras bilionárias na realização do maior espetáculo esportivo do planeta. Obrigação definida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) que, em 1994 no centenário dos Jogos da Era Moderna, definiu como premissa a promoção do esporte, da cultura e do meio ambiente. Decisão acertada: evento de tamanha grandeza não poderia fugir aos princípios da sustentabilidade. Não poderia, mas fugiu. Prevaleceram medidas paliativas: fábricas, indústrias e termelétricas paradas, rodízio obrigatório de veículos, orientação para os chineses não usarem máscaras contra poluição.
Do pouco que se fez, cinco estações de tratamento de esgoto, outras cinco de tratamento e reuso da água, apenas três novas linhas de metrô (descaso com o transporte público). Ganharam o planeta as imagens do Ninho do Pássaro e do maior terminal aeroportuário do mundo. Aquele, com 36 km de estrutura de aço. Perdeu-se a oportunidade de dar um bom exemplo. Materiais que consumissem menos energia (que o aço), produtos menos degradantes, investimentos em energia renovável (a China tem apenas 3% de sua matriz energética renovável). Impecável? Para um mundo sedento de sustentabilidade, os pecados vistos foram muitos. E não foi por falta de exemplos. Em Sydney 2000 a Vila Olímpica foi construída em uma área degradada devidamente recuperada, com coleta e reuso da água, toda a energia utilizada era energia solar e até pratos e talheres eram orgânicos.
Assim como o espírito olímpico é maior que qualquer número de medalhas, a grandeza de uma nação é muito mais que os números de sua economia. No quesito sustentabilidade não há que se falar em medalha, a China nem mesmo fez o mínimo para ser classificada. O site www.london2012.com traz a sustentabilidade como meta primeira dos Jogos a ser alcançada, a chama ainda está acesa.
REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo e policial militar em Londrina
Grampear os homens públicos
Walmor Macarini
Se a escuta pelo povo de todas as conversas dos homens públicos fosse não só permitida mas obrigatória, deixaria de ser um delito. Basta, portanto, institucionalizá-la. A existência de grampos no sistema governamental não só preocupa o cidadão comum, como ele gostaria que tudo fosse transparente. Se ninguém tem nada a esconder, não há mal a população saber de tudo. Já existem as TVs abertas nos parlamentos e seria ótimo estendê-las aos recintos fechados dessas Casas e a todas as repartições de qualquer Poder.
Se isto não invadir a vida privada embora seja nos recônditos mais reservados onde as falcatruas são articuladas não há por que não expor as coisas à claridade. Afora os segredos de guerra e alguns outros que resguardam a segurança nacional, deveriam ser colocados, nos gabinetes do presidente da República, dos governadores, dos prefeitos, dos parlamentares, dos ministros e de todas as demais autoridades, microfones e câmaras conectados a redes públicas de rádio, TV e internet para todos verem e ouvirem. Eventualmente algumas investigações poderiam temporariamente ser ocultadas, mas no momento certo tornadas públicas.
Se um cidadão quer ser um homem público, tem de se tornar público por inteiro. Até no portão de entrada de sua casa deveria ser colocada uma câmara, com transmissão aberta, para todos saberem quem entra e quem sai. Porque, pela qualidade de quem o rodeia sabe-se quem ele é. Quem não quer ter essa privacidade devassada, que não se candidate a nada e nem assuma função pública. Porque ao assumir um tal cargo ele sobe ao palco, torna-se visível e tangível e deixa de pertencer-se. Óbvio que o corpo funcional, em todos os níveis, não quer ser vigiado, mas se tudo fosse transparente boa parte das trapaças desapareceria.
Os homens públicos apreciam mostrar seus bons atributos alguns reais e outros falsos com aparência de verdadeiros mas óbvio que não desejam nenhum regime de plena transparência. Não no Brasil. Quando não é possível ocultar os escândalos e eles irrompem, então sabe-se por que eles têm tanto medo dos grampos. O que é mais ilegal? É o grampo ou a corrupção que os sigilos acobertam?
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA





