Gostaria de ver o ministro
defendendo mais recursos
para a saúde, eliminando
doenças vinculadas à falta
de saneamento básico e de
ver os profissionais
promovendo educação de
qualidade aos jovens e
adolescentes para permitir
o exercício da sexualidade
saudável e equilibrada

Nos últimos dias temos visto a nossa volta uma grande polêmica: a questão do aborto dos anencéfalos. Diversos núcleos apresentam argumentos prós e contras, em uma discussão extremamente importante, pois se trata de tornar institucional a decisão sobre a continuidade ou não de um evento referente à vida. Considerando o parecer do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, francamente favorável ao aborto, tenha o feto encéfalo ou não, causa-me preocupação alguns argumentos mencionados pelos grupos pró-aborto.
Vou abrir um parêntesis, para enfatizar o uso do termo ''aborto'', pois considero um eufemismo essa recente substituição por ''antecipação programada do parto''. Pois bem, os grupos pró-aborto enfatizam o sofrimento da gestante de um feto anencéfalo, alegando uma ''agressão à dignidade da pessoa humana''. Seguramente essas mães sofrem e a preocupação com o sofrimento alheio é sempre meritória. No entanto, pergunto: qual mãe não sofre por seus filhos? Sofre mais a mãe cujo recém-nascido vem a óbito em um curto período ou aquela mãe que vê seu filho morrer lentamente nos descaminhos da droga? Sofre mais a mãe cuja gestação enfrenta sérios riscos ou aquela mãe que vê seu filho, saudável e bem-formado, contrair uma doença causada pela falta de saneamento básico? Aliás, é possível mensurar o sofrimento?
Há outro aspecto muito sério. Os atuais recursos diagnósticos permitem a identificação de centenas de alterações durante a vida fetal. Síndromes diversas podem ser diagnosticadas com relativa segurança. Então, depois do anencéfalo, qual será a próxima alteração fetal a justificar o aborto? Isso me traz à mente qualquer coisa de ''pureza racial'' enrustida. Saber da surdez, cegueira, agenesia de membros, retardo mental, intersexualidade, etc., não são situações capazes de causar sofrimento nas mães e pais, de ''agredir a dignidade da pessoa humana''? Mas o mundo hoje tem se empenhado tanto na inclusão dos portadores de necessidades especiais, então como estabelecer quais anomalias podem ou não ser mantidas durante a gestação?
A ação pró-aborto é movida por um sindicato ligado aos profissionais da saúde. Fico surpreso com isso, seria de se esperar ações pró-vida dessas pessoas. Algo como cobrar do Ministério da Saúde mais investimentos no diagnóstico precoce de anomalias embrionárias e fetais. E incentivar pesquisas para, a partir do diagnóstico, haver medidas capazes de atuar na ativação ou repressão dos genes responsáveis por tais alterações. Afinal, a sequência gênica não pode ser alterada, mas a epigenética hoje nos mostra ser possível Modular a ação dos genes. Gostaria de ver o ministro Temporão defendendo mais recursos para a saúde, eliminando doenças vinculadas à falta de saneamento básico. Gostaria de ver os profissionais desse sindicato promovendo uma educação de qualidade aos jovens e adolescentes para permitir o exercício da sexualidade de maneira saudável e equilibrada.
Finalmente, enfatizo minha estranheza à afirmação do ministro, afirmando uma acurácia de 100% no diagnóstico da anencefalia. Em geral, os profissionais das ciências da vida evitam sistematicamente os ''100%'', porque todos os dias somos surpreendidos com fatos inesperados. Mais ainda, me recordo de um fato amplamente noticiado pela mídia há alguns anos. Por apresentar aumento de volume abdominal, dor e náuseas, uma mulher recebeu o diagnóstico de um tumor maligno, confirmado por ultra-sonografia. Meses de angústia depois, o suposto tumor ''se transformou'' em um bebê saudável, após parto normal. Será mesmo tão eficiente assim o nosso atual sistema de saúde?

MARCELO MARCONDES SENEDA é professor da Universidade Estadual de Londrina com doutorado em Biotecnologia da reprodução e pós-doutorado em Epigenética de Gametas pela McGill University

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