Sem cérebro, mas não sem coração
José Rafael Solano Duran


Quando algum movimento ou segmento da sociedade levanta a voz para evitar qualquer desastre, é considerado suspeito, obscurantista ou excessivamente conservador. Se tudo o que a ciência proclama fosse considerado ''exato'', então poderíamos afirmar que o cientificismo tem o lugar privilegiado na história da humanidade, pois no fim o que o homem quer é alcançar certezas e chegar até elas. Depois que em 13 de maio de 2000 foi proclamado o projeto genoma, muitos consideraram que se teria encontrado algo assim como a arca perdida. O projeto genoma contribuiu grandemente para que todos compreendessem o valor genético do ser humano. O avanço das pesquisas (que nunca foram condenadas sempre e quando trouxessem benefício) ofereceu uma nova forma de encarar doenças e situações limites no indivíduo. Mas, como tudo aquilo que pertence ao campo da experimentação, trouxe algumas posturas arrogantes e sem sentido: a manipulação embrionária e os abusos cometidos com as células tronco.
Cinco anos atrás numa das minhas palestras perguntava qual seria o caminho que a ciência ofereceria no futuro quando chegasse o momento de tomar alguma determinação sobre os embriões congelados. Lembro que alguns dos meus interlocutores, na época, sorriram maliciosamente. Só que hoje é uma pergunta que está nos questionários de toda a civilização. O que fazer? Nosso país iniciou semana passada um segundo debate que já está direcionado e manipulado. São convidadas diversas entidades que estão contra o aborto, se questionam os especialistas de todos os credos parra saber se a pessoa portadora de anencefalia tem ou não direito de nascer. As reações são diversas.
A maior de todas as teses é aquela de afirmar que o anencefálico vai morrer súbito e que não terá mais do que alguns minutos para poder entrar em contato com este mundo. Argumento netamente cronológico é insuficiente, pois muitas pessoas que nasceram e foram diagnosticadas em perfeitas condições e sem anencefalia morreram segundos depois de ter nascido. O argumento cronológico carece de valor filosófico e antropológico. Não se é pessoa pelo tempo que permanecemos no mundo, se é pessoa pela essência que levamos. Somos criaturas. Seria muito bom que os defensores do aborto por anencefalia pudessem tomar algumas aulas ou ler algum dos autores que abordam a cosmogenese.
Uma segunda teoria está sutilmente marcada por uma compreensão errada: ''Anencefalia é ausência do cérebro''. Sabemos cientificamente que não é assim. Em algumas ocasiões é má formação da cavidade craniana; em outras se trata de uma aderência limitada de partículas em relação ao crânio. Para muitos o problema se reduz ao fato de não possuir capacidade para se mover, para sentir (sensorialmente) ou para pensar. Somente estas capacidades não limitam nem eliminam o fato de ser! Nosso ser contingente é iniludível. Ele somente será pleno na medida em que, como pessoas, possamos manifestar aquilo que de mais humano possuímos: nosso sentido de ser criaturas (não somos criadores de outros seres).
Não posso deixar de manifestar minha indignação ao perceber que depois de tantos séculos, quando inúmeras ciências abriram espaço para que o ser humano fosse reconhecido no sentido pleno da sua existência, essas mesmas ciências agora se convertam em inimigas daquele que as criou. A ciência, diria Blaise Pascal, possui ferramentas mas não valores. Por isso mesmo o Cartesianismo vem-nos afogando num método frio e obsoleto onde unicamente os resultados contam. Os processos são confundidos com os meios, sem importar-se com o fim. A grande confusão da ciência post moderna não está nos resultados, está na mesma verdade. Para Pascal - que poderia ter sido chamado ''pai'' da filosofia moderna -, a verdade é a contínua procura do outro: ''Eu não te procuraria se não tivesse encontrado você''. Um ser humano - por mais anencefálico que seja - é pessoa, criatura e ser. Sua identidade não pode ser manipulada nem muito menos dominada pelo conceito do resultado. Pensando que o anencefálico estará no mundo somente, alguns minutos, cairemos num reducionismo asfixiante.
Precisamos de uma ética que valorize o coração como centro vital das decisões e permita a todos revermos nossa participação na história da humanidade. Anencefalia não é sinônimo de ausência de coração. O anencefálico possui alma e isto lhe concede o dom de ser pessoa.
PADRE JOSÉ RAFAEL SOLANO DURAN é doutor em Teologia Moral e Bioética e reitor do Seminário Paulo VI de Londrina

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