ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Dom Orlando Brandes 
Só pode haver
verdadeira amizade
entre pessoas de
bem. Daí que amizade
requer lealdade,
constância e justiça.
Na amizade tudo é
verdadeiro. O maior
ornamento da amizade
é o respeito
A amizade fiel é um refúgio seguro e não tem preço que pague. É um tesouro inestimável e dom de Deus. Deus cria os amigos, leva o amigo ao amigo. Sem amigos somos como estrangeiros, com os amigos nos sentimos em casa. Com um amigo do lado nenhum caminho é longo. Na verdade o amigo é um escudo contra emoções negativas, é como asas que nos eleva acima do pó da terra. O amigo é a visibilidade e o sacramento do amor de Deus. É como sol que ilumina a vida.
O amor de amizade consiste em acolher o outro como ele é, não esperar recompensa e vantagens, respeitar sua liberdade, ser compreensivo, abrir a confidência, acolher sem censuras, querer que o outro seja mais, sentir alegria de estar em sua companhia, partilhar a vida.
O amigo pode ser o melhor terapeuta porque está perto, compreende, ajuda. Sem amizade nada é amável. Nossos amigos podem se tornar nossos inimigos quando eles não são pessoas de bem. Ao lado da amizade verdadeira, há amizade falsa, por interesse e prazer. Quatro coisas levam a perder uma amizade: primeiro, a falta de abertura. Quem esconde os sentimentos mata a amizade. O fechamento leva ao tédio, rotina, afastamento. Segundo, a falta de tempo. O excesso de trabalho, o ativismo, a ocupação demasiada não permite o encontro, a presença, o diálogo. Quem ama dedica tempo à amizade. Terceiro, a falta de igualdade. Os amigos estão no mesmo plano. Um não é tutor do outro, nem mestre, nem psicólogo, nem benfeitor. A posição de superioridade impede a amizade. Quarto, o excesso de presentes com excesso de carinho sufoca o outro, tira a liberdade, acaba em dominação.
A amizade é feita de gratuidade requer fidelidade e, portanto, sempre a verdade. Onde entra a falsidade morre a amizade. A harmonia de visão, a vontade do bem do outro e o afeto são três componentes essenciais da amizade. Nossa pátria é lá onde encontramos amigos. O amor de amizade é profundo, intenso, personalizado, aberto, livre.
A experiência mostra que para manter a amizade é preciso espiritualidade, ou seja, presença de Deus. Assim na amizade fazemos a experiência do divino. Graças à amizade verdadeira, muitas pessoas encontraram Deus, foram poupadas de experiências negativas, encontraram apoio, consolo, orientação. Na amizade existe também a correção fraterna e crescimento humano, espiritual, social. Nada mais decepcionante que a amizade interesseira e a dor da traição dos amigos é inconsolável. Quando esta traição é conjugal e familiar, abrem feridas que só o perdão pode curar. A amizade é o belo amor, mas de amizade não se brinca. Manter a amizade requer doação.
A oferta da aliança que Deus faz ao seu povo e a cada pessoa é uma oferta, uma proposta de amizade. Deus fala conosco nas Escrituras num diálogo entre amigos. Jesus declara que somos seus amigos a ponto de Ele dar sua vida para salvar esta amizade. Ele chorou a morte de seu amigo Lázaro (11, 35). Tudo é prova de amizade, deixemos-nos amar pelo melhor amigo.
Para os gregos a amizade é o que existe de melhor, depois da sabedoria, sendo que para eles a sabedoria é o mesmo que virtude. Só pode haver verdadeira amizade entre pessoas de bem. Daí que amizade requer lealdade, constância e justiça. Na amizade tudo é verdadeiro. O maior ornamento da amizade é o respeito.
Pela amizade os ausentes estão presentes no afeto, os indigentes são ricos, os fracos são cheios de força, os mortos estão vivos na lembrança. Sem amizade nenhuma casa fica de pé, nenhuma cidade subsiste, a vida na terra é insuportável, porque ela é um sentimento de amor verdadeiro e espontâneo, que ameniza o convívio. Sem amizade a vida se esvazia. O amigo é um tesouro. (Eclo 6,14)
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


