O represamento
de suas águas significará o provável desperdício de uma importante mina
de ouro que, se
bem administrada, poderia gerar
uma riqueza
incalculável



  Biólogos e ecologistas têm demonstrado seu parecer desfavorável à execução da Usina Hidrelétrica Mauá no Rio Tibagi. A maioria da população, por desconhecimento de fatores ecológicos importantes, encara nossas atitudes como infundadas, egoístas e radicais. Por se tratar da última bacia hidrográfica do Paraná que ainda permanece em condições naturais, ela se torna um ponto-chave para políticas de preservação ambiental. A Bacia do Rio Tibagi nasce na Serra do Cadeado e durante o seu longo percurso, ocorre um desnível de aproximadamente 700 metros, responsável pela formação de águas caudalosas e de belíssimas estruturas como cachoeiras, regiões de corredeiras e poços naturais. O represamento de suas águas significará o provável desperdício de uma importante mina de ouro que, se bem administrada, poderia gerar uma riqueza incalculável.
  A construção da Usina de Itaipu, em Foz do Iguaçu, vem sendo questionada: estudos afirmam que o potencial turístico oferecido pelas Sete Quedas, em Guaíra, geraria um capital superior ao que a usina gera hoje, sem contar o fato de que a política de geração de renda teria um caráter descentralizado e culminaria com o amplo desenvolvimento e não apenas pontual da região. Políticas de preservação do meio ambiente vêm sendo adotadas por países de primeiro mundo, pois observam nestas áreas não somente um espaço de preservação ambiental, mas uma importante fonte geradora de lucro. Estes países percebem que os benefícios da instalação destas estruturas e de adoção de medidas mantenedoras das mesmas estão diretamente relacionados com outras importantes atividades como a indústria do turismo (Turismo Ecológico e de Pesca), responsável por uma grande fatia de seu PIB e, proporcionando também, a formação de áreas de lazer naturais como uma importante área de escape garantindo condições humanas de sobrevivência a sua população.
  O Rio Tibagi representa o único rio caudaloso de média/grande proporção que ainda se encontra em condições naturais e permanece passível de possibilitar condições naturais de reprodução de peixes migratórios. Peixes de corredeiras como dourado, pintado, pacu, surubim, piapara, entre outros, apresentam uma alta esportividade e procura e são naturais desta bacia. Pescadores esportivos viajam pelo Brasil à procura de peixes deste porte, assim, esta atividade se torna uma importante fonte geradora de lucro e de circulação de capital. Estimativas internacionais e nacionais (Pantanal) afirmam que, em média, o pescador esportivo gera US$ 100,00 por peixe nativo pescado, dando-nos uma idéia do potencial que está para ser submerso e desprezado.
  O Rio Tibagi por ser uma importante região exportadora de alevinos reabastece, não somente a sua própria bacia, mas todas as bacias ligadas direta ou indiretamente a ela. Fica evidente que a população prejudicada pela instalação desta represa não se encontra apenas ao seu redor e toma proporções nunca imaginadas pela parcela favorável à instalação da usina, assim como os prejuízos para as populações ribeirinhas e pescadores profissionais dependentes deste sistema. Considero fundamental o desenvolvimento humano e tecnológico, porém questiono essa política desenvolvimentista unilateral e imediatista que favorece a concentração de renda e a destruição em massa de potências inexploradas. Estamos falando de uma potência crescente com limites desconhecidos. Países de primeiro mundo estão aprendendo com os seus próprios erros e estão dificultando cada vez mais políticas destrutivas como estas. Precisamos também errar ou podemos aprender com os erros dos outros? Por que naufragar novamente uma importante fonte que gera e descentraliza renda? Até que ponto uma hidrelétrica seria a melhor solução para a carência de energia?
  Considero importante lembrar que fontes alternativas de geração de energia são bem definidas e conhecidas de todos (energia eólica, energia solar, pequenas usinas, entre outras) e todas são passíveis de gerar resíduos poluidores, mas diante da necessidade, aceitamos a instalação destas, porém, quais foram os critérios utilizados para a escolha do local e da obra a ser instalada? Quem pode mais, talvez? E assim, a grande maioria da população só tende a perder. Qual é o papel do biólogo no contexto nacional? Médicos, engenheiros e juízes de Direito produzem pareceres, de certa forma, incontestáveis. Enquanto isso, profissionais do meio ambiente que levam sua profissão a sério são como técnicos de futebol, todos opinam sobre o seu trabalho, porém a diferença é que a palavra destes profissionais do esporte é que expressa o parecer final. O parecer do profissional biólogo torna-se apenas uma opinião.

ARMANDO CESAR RODRIGUES CASIMIRO é biólogo em Cambé

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