Existem outros
interesses, como utilizar um novo conflito militar para
distrair a população
e desviar o eleitorado
americano da calamidade
econômica que se apresenta
no horizonte dos EUA, e
assim salvar as eleições
para os republicanos



O recente conflito na Geórgia esconde algo além do que apenas mais uma guerra civil naquela região. Praticamente no mesmo dia do início das Olimpíadas, os militares da Geórgia atacaram a capital da Ossétia do Sul, Tskhinvali, com vários foguetes lançadores destinados a devastar grandes áreas. Os bombardeamentos aéreos e terrestres foram em grande parte dirigidos contra alvos civis, incluindo zonas residenciais, e os hospitais universitários. A capital provincial Tskhinvali foi destruída. Os ataques resultaram em aproximadamente 1.500 civis mortos, de acordo com fontes russas e ocidentais. A Rússia reagiu ao ataque aos antigos territórios da ex-União Soviética. Apesar das notícias vinculadas pelo ocidente, há indícios que merecem ser analisados, de que não se trata apenas de mais uma guerra civil, mas algo muito maior dentro do atual cenário da geopolítica mundial:
1- A Geórgia vem nos últimos anos firmando acordos militares com os EUA e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), ao ponto do governo daquele país anunciar a construção de duas bases militares, dentro das exigências da Otan, em 2005 e 2006. Além disso, no último mês de julho, Geórgia e EUA realizaram em conjunto exercícios militares que por ''coincidência'' foram finalizados apenas uma semana antes do início do conflito com a Ossétia do Sul. Por outro lado, Israel vem fornecendo armamentos militares e apoio técnico para o exército da Geórgia. Isso tudo vem sendo contestado pela Rússia que acusa o ocidente de desestabilizar a região. Diante desses fatos, tudo indica que a Geórgia não agiria militarmente sem o parecer favorável de Washington, inclusive, Moscou já acusou a Otan de ter incentivado a Geórgia ao ataque.
2- Se o objetivo do ataque fosse ter o controle político sobre o governo provincial, a operação teria sido realizada numa forma muito diferente, com Forças Especiais ocupando edifícios públicos estratégicos, instituições e redes de comunicações, em vez de fazer uma guerra contra alvos civis como áreas residenciais, hospitais, etc. Isso indica que essa ação inicial da Geórgia foi uma provocação deliberada destinada a desencadear uma resposta militar da Rússia e atraí-la para um confronto militar mais amplo que a Geórgia, o que potencialmente pode desembocar numa guerra sem precedentes.
3- O fato dos soldados da Geórgia no Iraque, o terceiro contingente naquele país, estarem sendo enviados de volta para lutarem com os russos sugere que Washington tem a intenção de uma escalada do conflito. Desta forma, as tropas da Geórgia estariam sendo manipuladas para um conflito com as forças russas.
A questão que se coloca é qual o interesse de Washington nisso tudo? A resposta pode estar nos acordos bilaterais dos EUA com a Geórgia que visam proteger interesses petrolíferos dos americanos, israelenses e de gigantes petrolíferas ocidentais no Oriente Médio e na Ásia Central, assegurarando com isso, o controle dos gasodutos e oleodutos que atravessam a região em conflito. Estas diferentes modalidades de cooperação bilateral e militar, em última análise, são destinadas a minar a presença e a influência da Rússia na região do Cáucaso e da Ásia Central. Mas existem outros interesses, como utilizar um novo conflito militar para distrair a população e desviar o eleitorado americano da calamidade econômica que se apresenta no horizonte dos EUA. Assim, como as guerras do Afeganistão e do Iraque, um novo conflito militar poderia salvar as eleições para os republicanos. É claro que muitos dos analistas das agências internacionais não querem ver isso. Enquanto o mundo se volta para os Jogos Olímpicos de Pequim, o conflito na Geórgia, expressa os novos rumos da geopolítica mundial e o cenário é preocupante.

FÁBIO CÉSAR ALVES DA CUNHA é professor de Geopolítica e Regionalização do Espaço Mundial do Departamento de Geociências na Universidade Estadual de Londrina

mockup