Os livros deveriam tratar da condição díspar que o negro vive no Brasil para que ensinem aos adolescentes que a abolição resolveu um problema, mas inseriu o negro em outras dificuldades que permanecem ainda hoje

A idéia de que vivemos num país onde gozamos, todos, de oportunidades iguais, independentemente de raça ou cor, não passa de um engano que, embora combatido pela Política Nacional de Promoção de Igualdade, se mostra muito evidente em alguns materiais didáticos, em especial os da rede particular. Muitos desses livros omitem a real condição do negro no Brasil após a abolição da escravatura, levando-nos a crer que todos os seus problemas, ou a maior parte deles, foram também abolidos pela princesa Isabel quando, ao aprovar a Lei Áurea, legou ao ex-escravo apenas aquilo que lhe faltava: a liberdade. Todo o resto seria uma consequência lógica e inevitável, estando seu insucesso ligado unicamente a sua possível falta de vontade em atingir um padrão de vida aceitável, já que as oportunidades estariam postas, igualmente, a todos.
Esta idéia, de ''democracia social'', lançada inicialmente por Gilberto Freyre, nomeada como ''democracia racial'' por Roger Bastide e combatida enquanto mito, anos depois, por intelectuais do porte de Florestan Fernandes, recebe atualmente a denominação de ''racismo cordial'', ou como preferem alguns, ''racismo à brasileira''. Constituiria um tipo especial, velado de preconceito, o qual não transparece enquanto discurso, mas permanece enquanto prática, gerando como consequência uma desigualdade difícil de combater, dada sua fluidez e má percepção.
Aponta-se que os negros constituem 70% dos 10% mais pobres do país, enquanto os brancos ocupam 85% dos 10% mais ricos. Segundo o Ministério da Saúde, 25,6% dos negros morrem de causas violentas, como homicídios, acidentes de trânsito e suicídios, entre outras, o que demonstra sua vulnerabilidade social. Entre 2000 e 2004, a incidência da Aids entre a população negra vinha aumentando devido à falta de acesso a informações sobre prevenção. Além disto, o rendimento médio familiar per capita dos negros de todo o Brasil tem sido, em geral, menos do que a metade do que se paga aos brancos.
Diante de tantas informações que reafirmam a realidade desigual do negro, perguntamo-nos: se a história, conforme nos é dita pelos professores da área, serve como estudo do passado para que compreendamos nossa situação presente, por que grande parte dos materiais didáticos não trabalha a condição atual do negro no Brasil?
Segundo os Parâmetros Curriculares, é durante o Ensino Fundamental que se deve discutir a formação da cidadania, bem como estimular nos alunos as ''atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito''. Entretanto, grande parte dos livros didáticos destinada ao nono ano (oitava série) de escolas particulares, nas quais os negros totalizam apenas 33% dos alunos, desvia desta proposta quando expõe os acontecimentos do período contemporâneo, mas não explicita a condição do negro em nosso país, acabando por perpetuar o preconceito. Isso, porque, entre outros fatores, a população branca não sofre diretamente as consequências da discriminação e a falta de oportunidades e pode estar mais apta em perpetuar o preconceito.
Supomos que a omissão desta condição negra contemporânea por parte do material didático encobre a problemática, garantindo, assim, a manutenção do ''mito da democracia racial''. Portanto, os livros destinados ao nono ano (oitava série), já que propõem uma discussão da atualidade, deveriam também tratar da condição díspar que o negro vive hoje no Brasil para que ensinem aos adolescentes que a abolição da escravatura resolveu um problema específico, mas, ao mesmo tempo, inseriu o negro em um conjunto de outras dificuldades, as quais permanecem até hoje. Assim, acreditamos que a educação possa cumprir sua função e passar a desmitificar certas condições, tingindo de cores vivas este retrato preto e branco que é o Brasil.

LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História e RODRIGO FRANCO FERREIRA é estudante de Ensino Médio em Londrina

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