ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Telma Gimenez 
Um prefeito
exemplar
promoveria a interlocução entre seus agentes de governo
e a população ao
invés de tentar vender
a solução partidária
ou negociar nos bastidores do
paço municipal
Inicia-se a temporada de apresentação dos candidatos à Prefeitura da nossa cidade. Serão meses de bombardeio de papéis, debates, propagandas na TV e nas rádios, sem contar a internet. Tento refletir sobre como essas estratégias podem me afetar a ponto de tomar uma decisão tão importante quanto votar em quem dirigirá a cidade nos próximos quatro anos. Todos querem me convencer apresentando o melhor ''pacote'' possível. Procuro, inutilmente, um candidato que não projete em mim uma consumidora pronta para comprar o produto mais atraente. No entanto, parece ser esta a tradição na representação democrática: escolhemos no mercado, numa espécie de lei da oferta e da procura.
Em cada texto oral ou escrito procuro marcas da antecipação que se faz do que queremos nós eleitores. É segurança que falta na cidade? É o combate à corrupção? É uma cidade com mais auto-estima? É a resolução de problemas do trânsito? É a volta a um passado ''glorioso''? No horizonte, mais perto ou mais longe, vão se delineando os planos, promessas. Neste momento o importante é tentar atingir a ''veia'' da maioria.
As eleições municipais nos convidam a pensar a política da representação e as estratégias até agora adotadas para garantir que o governo seja, de fato, a expressão da vontade popular da maioria. Temos então propostas mais ou menos detalhadas do que se quer realizar. Os candidatos procuram se antecipar às expectativas, encontrando, no descontentamento projetado, um campo fértil para elaborar planos de governo.
Ao invés disso, gostaria de ver apenas princípios e diretrizes gerais que dessem lugar à participação popular no governo local, para além da Câmara de Vereadores. Assim, qualquer que fosse o assunto a ser tratado, a solução seria buscada com o respaldo de um processo de argumentação na esfera pública, mediante conselhos ou outros mecanismos de ''escuta'' constante da voz dos cidadãos londrinenses. No primeiro caso, tratar-se-ia de melhor qualificar dois aspectos da participação institucionalizada: por um lado, tentar fazer com que os conselhos não mimetizassem a política de representação com escolhas somente a partir de votos definidos por coloração partidária, e, por outro lado, garantir que as decisões tivessem real influência sobre os rumos da cidade.
Ao contrário do mercado, proponho o fórum. Ao invés de acordos entre Executivo e Legislativo, gostaria de ver um comprometimento real e efetivo com consultas populares, mediante a criação de condições para que essa participação se efetive e não seja apenas ''pro forma''. Gostaria de ver uma cidade ''deliberativa'', onde as pessoas sentissem que suas opiniões podem ser submetidas à discussão coletiva e as soluções são encontradas por meio da análise de consideração cuidadosa dos custos e consequências das diferentes alternativas.
Na cidade dos meus sonhos, o Legislativo assume um papel de interlocutor efetivo dos interesses da população, levando em conta uma visão construída, coletivamente, no diálogo permanente.
No mercado, todos são consumidores. No fórum, todos são cidadãos, com igual direito à expressão de seus valores e visão de mundo. Um prefeito exemplar promoveria a interlocução entre seus agentes de governo e a população ao invés de tentar vender a solução partidária ou negociar nos bastidores do paço municipal. Um prefeito exemplar apostaria na possibilidade de maior engajamento dos eleitores durante todo seu mandato, não apenas na época das eleições. Um prefeito exemplar teria uma visão para o desenvolvimento da cidade e a submeteria à ampla discussão. Alguém se habilita?
TELMA GIMENEZ é professora universitária em Londrina


