Despotismo
é um regime político que passa ao largo
das leis e age sem razão, remontando a
tempos muito antigos. É tão velho, corruptor e indesejável quanto
a lepra, sendo que
para a lepra já
existe cura



Um conhecido sábio afirmou há séculos que é uma ''experiência eterna'' que todo homem com poder seja levado a abusar dele, até encontrar limites. Quem diria, refletia risonhamente Montesquieu, a própria virtude precisa de limites! A mensagem subliminar do autor foi endereçada aos déspotas, como o imperador da China que mandou empalar um padeiro por motivos fúteis. De fato, contra a vontade do déspota, seja ela virtuosa ou viciada, não há recurso possível. Na Grécia antiga esse estranho regime político ficou conhecido como ''despotismo''. Isso porque tal regime era um pouco semelhante à relação entre o chefe de família (despotes) e seus escravos, e só poderia existir entre povos bárbaros do Oriente.
Condenando o despotismo, os gregos antigos também desprezavam o costume dos persas de se prostrarem na presença do governante. Como homens livres e orgulhosos de serem orientados na vida cívica pela razão que leva à liberdade, essa era uma forma inaceitável de desigualdade. Acerca da prostração dos povos orientais diante do déspota, em ''Viagens de Gulliver'' o escritor irlandês Jonathan Swift escreveu uma interessante passagem acerca deste ritual. No Japão, dizia Swift, o déspota simplesmente reduzia seus súditos à condição de répteis. Esses, movidos por necessidades extremas, pois suas vidas dependiam da vontade caprichosa do soberano, por vezes necessitavam falar-lhe pessoalmente. Nessas ocasiões, certos bons amigos já bem instalados na corte, arranjavam para que se espalhasse pó e grama solta pelo chão. O personagem de Swift relata ter visto um senhor com a boca tão cheia, que, depois de arrastar-se até a uma distância conveniente do trono, não foi capaz de pronunciar uma única palavra. Nem há para isso remédio algum, explica o atento observador ficcional, pois era um crime cuspirem ou limparem a boca na presença de sua majestade os que recebiam a graça de uma audiência.
No ''Dicionário Filosófico'', Voltaire também disse algumas palavrinhas desabonadoras em relação ao despotismo: ''Sob que tipo de despotismo gostaria de viver'', pergunta alguém. ''Sob nenhum'', claro. ''Mas será necessário escolher'', afirma um outro. ''Sendo assim, prefiro o despotismo de um só.'' ''Por quê'', alguém indaga. ''Ora, se um déspota comete uma injustiça para comigo, posso desarmá-lo por intermédio de sua amante, do seu confessor ou do seu pajem. Já uma assembléia de déspotas sisudos é inacessível a todos os ardis. Se existir apenas um déspota, estou quite ao encostar-me a uma parede quando o vejo passar, ou ajoelhar-me, ou bater no chão com a testa. Mas, se houver uma companhia de déspotas, fico exposto a repetir a cerimônia muitas vezes por dia, o que se torna desconfortável a longo prazo, quando não estamos bem das juntas.''
Em síntese, o despotismo é um regime político que passa ao largo das leis e age sem razão, remontando a tempos muito antigos. Em verdade, é tão velho, corruptor e indesejável quanto a lepra, sendo que para a lepra já existe cura. No mundo atual essa chaga atinge-nos de muitas maneiras, seja nas relações pessoais, nas de grupos, nas de governantes e governados. Há, inclusive, a curiosa variação do despotismo democrático, forma de convivência pela qual certas facções hegemônicas encontram meios institucionalizados para fazer crer às minorias e aos indivíduos que eles sempre estão errados. Rousseau explica. Ao que parece, a referida ''experiência eterna'' do despotismo persiste ainda vigorosa em nosso tempo. A sua longa duração permite supor que seja algum tipo de atavismo ou quem sabe uma espécie de ''lei natural'' gravada na natureza humana. Há sempre o eterno Robert Mugabe e outros Robert(os) para não deixar nenhuma dúvida quanto à sua perenidade. Para piorar tudo, estão em toda parte e se reproduzem com a rapidez dos ratos. O grande Voltaire sabia mesmo das coisas.

MARCOS ANTÔNIO LOPES é pesquisador do CNPq e professor na Universidade Estadual de Londrina

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