ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de agosto de 2008
René Ruschel 
Apesar do autor ser candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata e um dos personagem mais discutidos pela mídia internacional, o livro ''A Audácia da Esperança'' parece fadado a mofar nas prateleiras das livrarias brasileiras. O título não engrossou o rol dos best-sellers mais vendidos; seu lançamento não foi manchete nos jornais nem capa de revistas, tampouco os cientistas sociais avaliaram o texto como uma importante contribuição teórica ao aprimoramento do debate político. Para o jornal nova-iorquino, ''The New York Times'', no livro Barack Obama ''... se esforça para basear seu pensamento político no bom senso (...) e articula suas idéias em uma prosa equilibrada e não-partidária''. A rigor, ainda segundo o jornal, isso já seria algo incomum num período pré-eleitoral, cheio de armadilhas, assim como para este momento em que o mundo vive uma fase cada vez mais polarizada e polarizante. Mas o fundamental está na forma como o senador pelo estado de Illiniois e candidato a presidente da República do país mais importante do planeta escreve essa espécie de ''quase memória'', mostra sua visão intimista de mundo acrescida por opiniões e depoimentos pessoais. Certamente que em nenhum outro momento da história um postulante à Casa Branca teve tamanha ousadia.
Filho de um africano nascido no Quênia com uma americana do estado de Kansas, Obama, um ''garoto magricela com nome estranho'', emergiu dos guetos da para ser aprovado em Harvard e depois, em 2004, tornar-se o terceiro senador negro da história dos EUA. Carismático, excelente orador, possui uma qualidade incomum entre os seus pares no Congresso: de expor publicamente suas idéias. Não os chavões tradicionais que os políticos costumam repetir, mas como vê questões como racismo, políticas econômicas e sociais, sa© úde, aborto, meio ambiente, segurança nacional, política externa, entre outras. Aliás, sobre política externa Obama não só põe em xeque como critica as práticas dos EUA em intervir ou invadir países do Terceiro Mundo.
Sem meias palavras toca o dedo nesta que é uma chaga antiga e controversa a todos os governantes. Segundo ele, todos os governantes atuaram ''na promoção do capitalismo ao estilo americano e das corporações multinacionais; na tolerância e no encorajamento da tirania, da corrupção e da degradação ambiental quando servem aos interesses dos EUA''. Questiona as práticas adotadas via FMI que exige dos países em desenvolvimento a eliminação de barreiras comerciais que os protegem da competição ''enquanto protegemos nosso eleitorado de exportações que poderiam ajudar a tirar um sem-número de nações pobres da miséria (...); protegemos patentes de companhias americanas e desencorajamos países como o Brasil na produção de remédios genéricos contra a Aids e que poderiam salvar milhões de vidas (...); forçamos países que enfrentam crises financeiras a adotar dolorosos reajustes que nós, americanos, teríamos dificuldades de administrar em nós próprios''. Apesar de viver num país conservador e moralista, Obama critica a postura dominante nas igrejas por discutir ''a religião apenas no sentido negativo de onde e como não deve ser praticada, em vez do sentido positivo que nos fala sobre as obrigações de uns para com os outros''.
Opõe-se e critica as invasões bélicas ''...mal orientadas e baseadas em falsas suposições que ignoram aspirações legítimas de outros povos, além de contribuir para a formação de um mundo cada vez mais perigoso''. Justifica sua opinião lembrando uma frase do ex-presidente John Quincy Adams, de que os EUA não deveriam ''expandir-se em busca de monstros, nem tornar-se ditadores mundiais'' e lembra que ''por décadas toleramos e apoiamos ladrões como Mobutu e bandidos como Noriega, contanto que se opusessem ao comunismo''. Deixa no ar duas perguntas fundamentais: ''Como lidaremos com países como a China, que estão se libertando economicamente mas não politicamente?'' ou então ''se trabalharemos com a ONU em todos os assuntos ou apenas quando ela estiver disposta a ratificar decisões que já tomamos?''. Mesmo que não vença a corrida rumo à Casa Branca, Barack Obama, aos 47 anos, entrou para a história como um dos maiores fenômenos políticos dos EUA. Agora resta esperar se, uma vez eleito, terá audácia suficiente para provocar rupturas numa sociedade dividida e já quase sem esperança.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


