Eleição e responsabilidade do voto
Sérvio Borges da Silva
  Em Londrina, uma corajosa juíza teve o discernimento de deixar que o povo analise e escolha os seus candidatos a prefeito através do voto e não cassou, como queria alguns de nós, nenhum dos candidatos. Essa decisão foi corajosa e acertada. Por quê? Porque chamou o povo à responsabilidade, uma vez que os candidatos foram apresentados pelos partidos políticos. O povo reclama de seus eleitos, mas, pergunta-se: não foi ele mesmo que elegeu essa gente que aí está? Na hora de participar das decisões políticas o povo não se faz presente, deixa tudo para os políticos.
  Estamos quase chegando à hora da verdade. O Brasil vive um momento único, reclama-se de tudo e de todas as coisas, mas muito pouco se faz para mudar a situação dessa sociedade que todos ajudamos a criar e a sustentar. E a situação está colocada, com todas as fichas no tabuleiro da eleição municipal. Então, vamos votar bem, pois queremos bons candidatos.
  Também queremos bons juízes. São bons? Será que não existem outros? É a democracia, o governo do povo, para o povo e pelo povo. Sabemos que já foram elaboradas páginas de petições jurídicas, calhamaços de projetos de leis, sentenças sem fim. Existe no País um número infindável de escolas de Direito, séculos de estudos jurídicos e a nossa civilização continua a mesma: violenta, intolerante, exclusivista, defensora dos poderosos. Nas prateleiras das delegacias de Polícia, permanecem centenas de processos narrando crimes insolúveis, contemplando a face do sofrido povo, escarnecendo cruelmente sobre a inércia de autoridades inservíveis. Até parece que anunciam que adiantam, muito pouco, as pregações pacíficas, pois os costumes continuam os mesmos.
  Vamos para mais uma eleição em Londrina. Tudo vai depender do comportamento do eleitorado, não somente durante o pleito, também durante o mandato dos políticos, quando a fiscalização do trabalho deles, vai ser extremamente importante para a realização do bem comum. Ou participamos todos ou tudo fica como está.
SÉRVIO BORGES DA SILVA é advogado em Londrina

Os outros somos nós
Walmor Macarini
  É engano pensar que teremos bons governantes se não formos uma sociedade capaz de produzi-los. Se cada indivíduo pautar-se por atitudes corretas - em casa, no escritório, na loja, na fábrica, na sua função seja ela qual for - aí podemos ter certeza de que formaremos boa família, boa escola, boa igreja, bom governo, boa comunidade. Não podemos esperar que os outros comecem primeiro, porque os outros somos nós.
  Queremos sempre domar pessoas e instituições, mas devemos principiar por nós mesmos. Se começarmos individualmente, quem sabe induzimos nosso filho, e aí seremos dois; nosso vizinho pode juntar-se, e aí seremos três e podemos dar o exemplo a mais três e aí serão seis, que serão doze e assim progressivamente. Se temos governantes bons, eles compõem a parcela boa do meio social; se temos os maus, é porque uma parte substancial da sociedade se assemelha a eles. A conduta dos cidadãos gerará governantes de qualidade idêntica. Nós só podemos pinçar do meio o que o meio possui.
  O que mais temos feito em nosso dia-a-dia é viver em acirrada concorrência, e no mais dos casos ela é tão sutil que mal percebemos. Temos passado aos filhos a idéia de que o mundo é de disputa, e as próprias escolas (sobretudo as de treinamento gerencial) e por extensão os segmentos da produção, do comércio, dos serviços, ensinam a doutrina da competição. Se o que ganha a dianteira sobrepuja-se pela competência, pelos seus bons atributos ou pela boa qualidade de seus produtos e obras, tanto melhor, mas o que se assiste é a um constante estado de concorrências demolidoras. Num idêntico ramo de negócio ou atividade, só uma minoria partilha conhecimentos e experiências, porque a maioria compete, e se puder detona o outro.
  Temos apregoado o ideal de boas famílias, boas escolas, boas religiões, boas empresas, bons governos, mas devemos saber que essas instituições se compõem de mais ninguém senão nós próprios. Não são elas que irão nos melhorar, mas ao contrário, cada um de nós é que as tornará melhores. A sociedade não é algo à parte de cada indivíduo. Se queremos conhecê-la, basta nos conhecermos, e aí teremos o exato retrato do que a sociedade é.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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