ESPAÇO ABERTO
Quanto custa um congestionamento
Fernando Klein Nunes
Ficar parado em um congestionamento já faz parte da rotina de muitos brasileiros. O prejuízo que isso ocasiona vai muito além da perda da paciência ou dos problemas de saúde. Esperar pode contabilizar danos relevantes para a economia do País. Em maio foi divulgado um estudo do Citigroup mostrando que o tráfego intenso deve limitar o potencial de crescimento econômico do Brasil e de outros países latino-americanos nos próximos anos. A pesquisa levou em consideração o tempo que se gasta em viagens urbanas e concluiu que o trânsito gera uma perda de 5% na produtividade do país.
Especialistas afirmam que nossas perdas financeiras devido aos problemas de trânsito podem chegar a dezenas de bilhões de reais. Os donos das transportadoras chegam a perder com os engarrafamentos aproximadamente 20% do valor do frete. Ficar parado gera gastos maiores com combustível, manutenção de peças dos veículos, além da perda de tempo e mais horas trabalhadas, encarecendo o serviço.
É observando nossas estradas que conseguimos identificar diversos fatores que prejudicam o desenvolvimento do país. Nossos governantes não estão medindo esforços para estabilizar a economia, porém, com a péssima manutenção das rodovias fica difícil para os investidores escoar a produção. Assim, não há investimentos, o prejuízo aumenta para todos e continuamos a enfrentar filas causadas pela falta de infra-estrutura no país.
Podemos citar como exemplo congestionamentos em nossas estradas pela demora na finalização das obras de recuperação da ponte sobre o Rio Itajaí-Açu, localizada no trecho norte da BR-101, em Santa Catarina. Para a reforma foi interrompido o tráfego de veículos na faixa direita da pista, sentido Sul-Norte, para a execução de serviços emergenciais. Esta interdição provocou engarrafamentos diários. A demora desta obra foi uma agressão contra transportadores e motoristas em geral. Nosso papel é alertar a população para que veja com olhar crítico estes números e perceba que todos saem perdendo com a falta de planejamento. Caso contrário, continuaremos a contabilizar perdas que podem afetar, ainda mais, a competitividade econômica do Brasil. Isso sem falar no aumento do nosso estresse.
FERNANDO KLEIN NUNES é presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas do Paraná
A virtude do amor
Nelio Roberto dos Reis
Em meio a tantas crises existenciais, o homem esqueceu a sua maior virtude que seria o amor, defendida por Platão como espiritual e que transcende a matéria. Todos nós - pelo menos os com filhos adolescentes - aplaudimos a Lei Seca que reduziu mortes e acidentes de trânsito. Por outro lado, ela causou uma diminuição na captação de órgãos para transplante. Menos mortes de jovens saudáveis, menor número de transplantados. Em muitos estados caiu pela metade e, mesmo assim, médicos são denunciados por participação em esquemas que permitem furar a fila nacional de transplantes mediante pagamento de R$ 250 mil.
Não é difícil chegar à conclusão, sem ser filósofo, que só os indivíduos com caráter inviolável e mente sadia e equilibrada podem realmente amar o próximo e a si mesmo. O que deveria ser um médico? Aquele que aplicaria na sua vida o juramento de Hipócrates: Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém - conservarei imaculada minha vida e minha arte. Ou, então, os ensinamentos de Nietzche: Eu vos rogo, meus irmãos, permaneceis fiéis a terra, e não acrediteis no que vos falam de esperanças ultraterrenas.
Como seria bom se o inferno existisse para os vendedores de órgãos e de almas. Sumariamente deveriam ser desligados de qualquer vínculo com a Medicina, pois não existe crime pior do que, em vez de salvar alguém, o médico morrer em vida. Isso ocorre quando algo se perde. Perdeu-se o dom de prover de misericórdia um carente, de prover de saúde alguém com esperanças em uma fila de transplantes. Não se concebe aqui a falta de ética e interesses voltados para o lucro de um curador que perdeu ligações afetivas e espirituais. Deveria ser alguém integrado consigo mesmo e com os demais para se aproximar da felicidade, da saúde e conseqüentemente se chegar à vida. A proeminência urgente de um transplante, ou a morte, tem que ser parte da vida que nos permite às vezes, verdadeiramente, viver.
Em um momento recente, a moral e a ética eram incluídas na grade de formação. O que parece coisa do além, nos mostra o quanto de negativo essa falta se faz nas relações interpessoais. A esperança não pode morrer e não é raro que se possa igualmente ressuscitar em vida. Como fugir dessa insânia, mascarada de sanidade?
NELIO ROBERTO DOS REIS é professor na Universidade Estadual de Londrina





