ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Jonathan Menezes 
O cenário político
da Câmara de Londrina
é um relance de onde
podem parar aqueles
que pensam ser capazes de apenas parodiar o mal, brincando e se
lambuzando com o
poder econômico e
político, e disso
pretenderem sair ilesos
É possível ao ser humano parodiar (ou interpretar) o papel de um ''mal'' sem ser direta ou indiretamente afetado por ele? Muitos atores ou atrizes (e até alguns políticos) diriam que sim, que isso é normal, faz parte da profissão ou que tudo depende do distanciamento crítico em relação ao ''personagem''. Mas essa foi uma das perguntas que me fiz ao assistir a atuação do Coringa (interpretado por Heath Ledger) no filme ''Batman - O Cavaleiro das trevas''.
Muito se falou sobre o desempenho de Ledger nos meses que precederam à estréia do filme, especialmente em virtude de sua misteriosa morte, em janeiro deste ano. O diagnóstico ''oficial'' para o falecimento (''overdose acidental de medicamentos'') parece não ter convencido muitas pessoas, que, por uma mórbida curiosidade ou falta do que fazer, até agora tentam buscar uma explicação moral, psíquica e até espiritual para a morte do jovem ator, que alguns meses antes havia entrado na pele do novo coringa, de versão mais sombria, sarcástica, ousada, inusitada, inteligente e assustadora.
Ora, muito se discutiu e ainda se vai discutir a respeito, não tenha dúvidas disso. Assisti ao filme e achei o papel do Coringa simplesmente brilhante, fora de série, sem dúvida um dos pontos altos da trama. Já se fala nos bastidores que o ator receberá uma indicação póstuma ao Oscar. É esperar para ver. Mas, voltando à questão inicial, enquanto assistia ao filme, fui-me lembrando das muitas especulações que ouvi sobre a morte do ator, que, em suma, gravitaram em torno não de um acidente, mas de um possível suicídio; alguns acreditam que ele vivenciou tão intensamente o papel que acabou não resistindo à complexidade de se encarnar o mal. Esse parece ter sido o espectro do também ator Jack Nicholson que, comentando a morte de Ledger, disse em tom sarcástico: ''Eu o avisei'' (The New York Post).
Não posso dizer nem que sim e nem que não. Tudo não passa de especulação, especialmente para quem acompanha tudo de tão longe. E a minha questão aqui não é diagnóstica (o caso de Ledger ou de seu personagem foi apenas uma ilustração), é existencial mesmo. Lembro-me de uma passagem da introdução das ''Cartas de um Diabo ao seu Aprendiz'', de C. S. Lewis, em que esse autor relatava o quão tentador e perigoso foi para ele tentar pensar ''com a mente do Diabo''; criar - a partir de seus conhecimentos - um arquétipo das trilhas que o mal percorre para chegar a seus fins. E me pergunto se terá sido diferente para o prodigioso ator? Nunca vamos saber ao certo... Nem Jesus se permitiu ceder aos apelos e paródias do mal (Lucas 4). Será o ser humano capaz disso, sem nenhum tipo de prejuízo? Não sei se esse foi o caso de Ledger e nem estou aqui para afirmar isso. Mas, particularmente, não acredito que tenhamos tanta capacidade de distanciamento a ponto de não sermos em nada afetados perante a responsabilidade de ''encenar o mal'' - ainda que isso seja por puro profissionalismo.
O cenário político atual da Câmara de Vereadores de Londrina, por exemplo, é um relance de onde podem parar aqueles que pensam ser capazes de apenas parodiar o mal, brincando e se lambuzando com o poder econômico e político, e disso pretenderem sair ilesos. Para entrar nesse jogo asqueroso e inebriante do poder é preciso ter muito mais que o desejo de prevalecer, de enriquecer, de ser esperto, de tirar vantagem. É preciso aprender com o Coringa: não se pode querer burlar a ordem com a ordem, ou o sistema pelo sistema. Com isso não estou querendo instaurar nenhum manual do ''bom bandido''. Longe de mim. Só que o pior bandido (se é que há um tipo ''melhor''), para mim, não é aquele de perfil escancarado, como o Coringa, Osama Bin Laden, Fernandinho Beira-Mar e tantos outros são. É, sim, o bandido de terno, o funesto fazendo papel de santo, o lobo em pele de cordeirinho, o pior inimigo em pele de ''amigo do povo'', amigo do peito, como muitos dos ''ilustres'' da legislatura atual. Esses são as paródias do mal, o mal com cara de bem, atores de um filme que eu não quero mais pagar pra ver. Você quer?
JONATHAN MENEZES é mestrando em História Social pela Universidade Estadual de Londrina


