A opinião do outro
sobre como se processa
a construção da minha
rotina, deve estar
assentada primeiramente
ao escrutínio pessoal
e crítico daquilo
que foi enfrentado
em sua própria vida


Diz o ditado que geralmente acusamos aquilo que em nós escondemos. Quando leio a opinião de ''estudiosos'' ou ''especialistas'' de determinada área apontando técnicas, regras e condutas como pertinentes ou não, ao uso comum, penso na ousadia que estes indivíduos possuem por emitir juízos e afirmações sobre atitudes que, neles mesmos, deve se encontrar num campo de grave conflito existencial. Aliás, qual o sujeito nesta terra que viva sem ele? O conflito, segundo o educador Paulo Freire é importante elemento para que haja a possibilidade da construção do novo. O conflito de alguma forma nos tira da ''zona de conforto'', nos provocando a uma nova racionalidade sobre os dados que se apresentam e, desta forma, torna-se um determinante referencial para a possível tomada de consciência.
Há, porém, uma observação importante neste conceito. Quando falo em ''conflito'' não estou me referindo à ''barbárie''. O que tem extrapolado o bom senso das relações, e da qual ninguém se exime por responder, se dá por meio do agudizamento de emoções promovidas, muitas vezes, por uma provocação desnecessária àquilo que, num primeiro momento, é o único referencial para a construção do cotidiano do indivíduo.
A opinião do outro sobre como se processa a construção da minha rotina, deve estar assentada primeiramente ao escrutínio pessoal e crítico daquilo que foi enfrentado em sua própria vida. Esta análise é o primeiro elemento para que a distância entre ''o que se fala e o que se faz'', entre ''o que se é no mundo público e no privado'', sejam pautados numa coerência não apenas discursiva. Como diz o filósofo: ''Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência''.
O exercício de apontar ao outro o caminho sobre assuntos que são frágeis na própria existência, em nossa opinião tem sua tradição acolchoada tanto pelo materialismo científico quanto pelo apanágio idealista, porquanto localizam o sujeito sempre em distância com o objeto/fenômeno (o primeiro, por conceber ''magicamente'' a realidade como elemento ''dado'' e não historicamente construído, e o segundo, por supor a realidade ''in abstrato'').
Talvez ainda dê tempo para lembrar aquela máxima conhecida sobre ''a pedra e o telhado de vidro''. Os sujeitos em oposição se encontram prontos a servirem de pedra uma vez que estão em frequente vigilância ao comportamento alheio. Porém, um olhar mais apurado ao seu comportamento ou, melhor, a convivência por algum tempo com estes sujeitos que até então se apresentavam como ''ilibados personagens'', diluídos pela câmara do espaço imediato, mostram que estes apenas nos constrangiam duramente com uma ''personalidade grande'' e pesada demais.
A elaboração de uma nova condição humana, que se aproxime de uma melhor experiência existencial à coletividade, ultrapassa aquilo que Rousseau falava sobre a ''declaração da vontade geral'', uma vez que é mister o cuidado sobre o que e quem profere tal opinião (principalmente sobre o ato alheio) e, ainda mais, quanto ao seu comprometimento com aquilo que se entende por ''verdade''. Um exemplo clássico deste fenômeno é a ''ditadura do coletivo'', que pelo silêncio de vozes contrárias e pela parcialidade de juízos sobre a questão, perde-se aquilo que vem a ser tão rico no produto da existência humana: os diversos olhares sobre aquilo que na particularidade é tão relativizado.
Isso nos remete a outro ponto: temos ''relações de respeito'' por aquilo que é contrário ao que pensamos ou simplesmente ''toleramos as diferenças'' para não enfrentarmos a questão? Sabemos que somos, sim, seres em processo de contínuo desenvolvimento, mas necessariamente precisamos acumular saberes com as experiências vividas, a partir da proposta de caminharmos para a possível superação dos conflitos.

ADREANA DULCINA PLATT é doutora em Educação pela Unicamp e professora na Universidade Estadual de Londrina

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