A política não está mudando
Marcos Antonio Tordoro
  Os escândalos se multiplicam, as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) acontecem sob a atenção de repórteres do Brasil e exterior. Mas quase nada muda, a não ser a maneira de desviar a atenção dos eleitores e o modo de desviar dinheiro público.
  As eleições municipais se aproximam, a simpatia e a mentira se misturam à desfaçatez natural dos candidatos estelionatários que são eleitos através do engodo e da exploração da credulidade popular. Como se não bastasse, também exploram a ganância de eleitores oportunistas que vendem seus votos pela recompensa momentânea. Deixam de lado a possibilidade de mudar o seu futuro, de sua família, de seu bairro e país. É o retrato do crime de estelionato (na modalidade golpe do bilhete) - bandidos querendo obter vantagem e uma vítima gananciosa visando lucro fácil.
  Todavia, a esperança, firme confiança na mudança, não deve nos deixar porque muitos são os homens e mulheres que podem mudar a realidade política e social do Brasil, mas lhes faltam coragem para essa luta difícil e cruel. Difícil porque o caráter e a honra de um homem ou mulher de bem será, com bastante freqüência, confrontados com os conchavos e maracutaias tramados nos corredores, salas e gabinetes de assembléias legislativas, prefeituras e palácios de governo. Cruel porque as dificuldades e obstáculos, na maioria das vezes, serão fruto também da malandragem e da luxúria de aliados e adversários.
  Os exemplos não são poucos, temos casos de corrupção das mais variadas modalidades, noticiados em todo país, nos grandes e pequenos municípios. É triste, mas é realidade. Contudo, apesar das constatações cotidianas do desmando, contrabando e do bando de ratos que povoa os esgotos do poder, há, entre nós, homens e mulheres de boa índole e com vontade de fazer valer o meu e o seu voto, mas ainda desencorajados pela falta de consciência política do eleitorado brasileiro.
  No que respeita aos valores da classe política brasileira, a coragem, a honestidade, a responsabilidade, entre outros, deixaram há muito de fazer parte do caráter dos nossos representantes.
MARCOS ANTONIO TORDORO é 1º tenente da Polícia Militar em Rolândia


O país dos paradoxos
Paulo André Chenso
  Vivemos num país maravilhoso e, ao mesmo tempo, curioso. Já se dizia em antanho que este era o ‘‘país dos contrastes’’ - na época, apenas geográficos. Hoje, os contrastes são muito mais escabrosos. O caso das afirmações do governo sobre a economia, por exemplo: toda vez que o governo diz uma coisa, ocorre exatamente outra (isto é um contraste). Porém, através de uma propaganda massificante, e mesmo massacrante, o governo convence a imensa maioria dos brasileiros incautos, de que tudo é maravilhoso -a educação, a saúde, o povo comendo mais, a economia crescendo, o desemprego desapareceu, o Bolsa Família aumentou, etc. E todos parecem viver felizes para sempre. De acordo com o nosso governo, este é o verdadeiro ‘‘País das Maravilhas’’ onde cada brasileiro se sente (ou deveria sentir-se) uma Alice.
  Mas, se é assim tão maravilhoso, por que as notícias que leio nos jornais são tão diferentes? Elas dizem, por exemplo: ‘‘O rendimento da poupança perde para a inflação’’; ‘‘O IPCA do 1º semestre é o maior desde 2003’’; ‘‘O preço dos alimentos puxa a inflação para cima’’; ‘‘A inflação deve persistir no 2º semestre’’; ‘‘CNI (Confederação Nacional da Indústria) reduz previsão do PIB para 2008.’’; ‘‘Inflação sobe e ameaça meta anual’’; ‘‘Inflação já ameaça finanças estaduais.’’; ‘‘Idoso enfrenta maior inflação em 5 anos’’; ‘‘Aumento do crédito não acompanha custo de produção’’, etc.
  Ora, se está todo mundo tão feliz e satisfeito com o governo atual, se a economia vai de vento em popa, como nos quer impingir todos os dias os homens do governo (e a propaganda desvairada), por que tantas notícias preocupantes? Por que só se fala na possibilidade do dragão da inflação atacar novamente?
  Se ‘‘tudo é divino, tudo é maravilhoso’’ (com licença de Belchior), por que tantas organizações e empresas, particularmente aquelas ligadas diretamente ao governo federal, estão em greve ou ameaçando paralisação? Tivemos greve na Anvisa, na Embrapa, nos Correios, no INSS. Por que tantas notícias escabrosas sobre a atual situação da saúde? Por que nossos índices de qualidade de ensino são tão horríveis? O que está acontecendo? Não está todo mundo tão feliz!? Pois é, este é um país de contrastes. Muito mais que de contrastes, de paradoxos.
PAULO ANDRÉ CHENSO é médico, professor e historiador em Londrina

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