O Paraná na lona
Antônio Cescatto


No Carnaval, o Estado de São Paulo comemorava o renascimento do interior paulista acentuando, com aspas e majestade, que a região tinha o perfil de um país. Motivo da transformação? A chegada de inúmeras indústrias que, incentivadas por novos e gordos benefícios fiscais, instalavam-se por todo interior bandeirante. Depois de passar longos anos condenando a política de incentivo fiscal adotada pelo Paraná na era pré-conflito, São Paulo contra-atacava investindo pesado naquilo que condenava como espúrio: concedia benefícios e mais benefícios.
A nova política adotada pelo Paraná que determinou a vinda de gigantes como a Renault, por exemplo, havia desencadeado ações similares por parte de governos de outros estados provocando, em consequência, uma saudável desconcentração na distribuição de empresas pelo país. Naquela ocasião, o Rio Grande do Sul perdera uma grande empresa para a Bahia pela absoluta intransigência do governador Olívio Dutra. O Paraná, insuflado pela onda de abertura e pelos incentivos, seguia em outro rumo: as empresas batiam em nossa porta querendo desfrutar da qualidade da mão-de-obra e de tudo que o Estado oferecia (benefícios incluídos).
O que mudou de lá pra cá? Simples: o ambiente. Desde 2002 passamos a viver em um Estado que pratica a truculência como forma de administração: contratos são ameaçados e a iniciativa privada é vista como inimiga pública número 1. O Paraná virou refém de um modo esquizofrênico de governar: de um lado se vangloria dos índices que as indústrias trazem para o nosso PIB, de outro tem um pé atrás quando o assunto é oferecer mais incentivos e garantir um ambiente propício para investimentos. Com a astúcia e a determinação, São Paulo voltou à cena com todas as suas armas. E, encontrando os adversários fragilizados, vislumbrou a possibilidade de recuperar tudo que havia perdido. A saída da fábrica da Toyota do Paraná, nesse quadro, não é nem um pouco surpreendente.
O que surpreende é que tantas empresas ainda insistam em permanecer em um Estado cujo governo vira as costas para o que considera como capitalismo explorador, exercendo bravatas de grêmio estudantil e recusando-se, portanto, a agir como um Estado adulto e propiciador de um ambiente estimulante e criativo para os negócios e para a vida. O mundo é dos fortes. E dos inteligentes. Aos perdedores, como diria o Machado, as batatas. Ou a soja.
ANTÔNIO CESCATTO é publicitário em Curitiba

O canavial e o emprego
Antonio Delfim Netto


O governo precisa dar atenção a um problema que está apenas começando na região que provavelmente é a de maior desenvolvimento e mais rápido crescimento da renda no país. Ela abrange os municípios do interior de São Paulo onde a agroindústria do açúcar e álcool está intensificando a substituição do trabalho manual do corte da cana pela mecanização. A expectativa é que em 4 ou 5 anos este avanço das máquinas resulte na dispensa de um enorme contingente de trabalhadores, cuja recolocação não está sendo pensada pelo poder público.
Com a rápida expansão da produção agrícola e a instalação das usinas de etanol o quadro é de crescimento do emprego no campo, na indústria e nos serviços, o que transformou esta região na de maior renda per cápita do Brasil. Nesses períodos cresce também rapidamente a absorção de tecnologia moderna que promove o aumento da produtividade, exigência da competição que existe no setor. Trata-se de um processo natural e necessário, mas poupador de mão-de-obra. É evidente que isso preocupa pois são trabalhadores sem outra especialização a não ser a do corte da cana, atividade que por contrato com o estado de São Paulo deixará de ser manual até 2.015. O corte manual continuará a ser tolerado apenas nas regiões íngremes, onde a máquina não entra.
É verdade que a colheita manual não é um trabalho saudável e inevitavelmente a mecanização dominará toda a grande área plana. O que não se deve esquecer é que para cada mil toneladas colhidas por uma máquina, dispensa-se um homem/ano. Um trabalhador colhe sete ou oito toneladas por dia durante 130 dias do ano e então é preciso começar a somar os empregos que vão ser abatidos com o avanço da mecanização. O Estado, junto com a sociedade, tem que se preocupar desde já em preparar esses milhares de trabalhadores para novas atividades remuneradas. É importante que o Governo Lula assuma esta tarefa, criando programas para dar treinamento e melhorar o nível de instrução desse povo que está sendo dispensado, para que ele esteja apto a absorver novas formas de trabalho, seja na área urbana, seja no campo onde a volução tecnológica está exigindo uma mão-de-obra minimamente preparada.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP e ex-Ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

mockup