Contra os santos
furores dos combatentes
que crêem deter
o monopólio
da verdade
e das virtudes, o
único remédio é
a espera paciente


  No início do século XX o filósofo francês Julien Benda publicou um livro que se tornaria famoso: ‘‘A Traição dos Intelectuais’’. Nessa obra, o filósofo definiu como primeiro dever do intelectual o compromisso de travar uma cruzada civilizadora contra os interesses circunstanciais que animavam os homens de seu tempo. O escriba, o homem de letras, não deveria se afastar da razão para se engajar em ações movidas a paixão. A percepção do autor era a de que o intelectual fora condenado a ser criatura orientada pela viseira de ideologias e de partidos, e escravo de casuísmos bem pouco dignificantes. Contra esse tipo asqueroso, Benda defendia a figura do homem de pura razão, ocupado unicamente com a verdade, em detrimento de qualquer interesse terrestre, individual ou coletivo. Com seu livro, Benda denunciava os ardis da inteligência, que permitiriam justificativas eruditas para a defesa de interesses circunstanciais freqüentemente inconfessáveis. Anunciava, assim, as sociedades que anulariam qualquer poder do pensamento independente: os regimes totalitários.
  O rechaço dos interesses particularistas, que em sua concepção tanto desmereciam os novos homens de letras, rendeu a Benda a crítica de ter desejado romper os elos entre as miudezas da condição humana e o plano das idéias, para aí refugiar-se. Em busca de valores eternos e universais, a filosofia de Benda descolou-se das realidades práticas, num tempo de acirradas lutas ideológicas que cobravam dos homens de letras, além de idéias, engajamento político.
  Em alusão à obra de Benda, o cientista político Norberto Bobbio escreveu que, por tradição, os intelectuais aplicavam-se à busca da verdade acima dos interesses de tempo e espaço, e eram os servidores da justiça acima das partes.
  A partir do momento em que a paixão política prevaleceu sobre a razão filosofante, os intelectuais começaram a subordinar as ‘‘verdades eternas’’ aos interesses contingentes da nação, do grupo, da classe, etc., ou seja, a submeter a razão da justiça à razão do Estado. Assim agindo, traíram a sua tarefa. As ditas ‘‘verdades eternas’’ das quais fala Bobbio eram algo como a fé numa verdade trans-histórica, que orientaria a pena do escriba para a defesa de temas maiores, de grandes e nobres causas do gênero humano. Por longo tempo, essa expectativa idealizada do escriba embaçou a percepção de que as dissensões, favoráveis ou contrárias ao poder político - qualquer poder político, em qualquer época - eram essencialmente lutas do campo dos intelectuais que, por isso mesmo, traziam a traição no próprio sangue. O escriba era revelado então como um animal político por excelência. O seu corpo podia até ser de cordeiro, mas seus dentes eram por demais afiados. E onde há comunidade política desenvolvida, ao ponto de se erguer as estruturas de um aparelho burocrático provido de recursos, o escriba ali se insere como se fosse este espaço o seu ambiente natural. Refém do poder, as idéias do escriba sempre obedecerão aos limites impostos por interesses bem definidos. Portanto, os intelectuais não são, nem podem ser, concebidos como espíritos livres cuja vocação é o livre pensar.
  A imagem da ‘‘traição dos intelectuais’’ elaborada por Benda traduziu a recusa da realidade do intelectual, da sua eterna condição de artesão e/ou beneficiário do poder político. Desde as idades mais remotas essa figura mimética a que se denominou sucessivamente por escriba, sacerdote, clérigo, jurista, letrado, professor ou, a partir dos finais do século XIX, intelectual, atuou sempre como uma espécie de coadjuvante dos heróis e dos líderes, como um ‘‘rouxinol da carnificina’’, segundo a expressão de Régis Debray. Para ele, ‘‘as mais sujas entre as mãos sujas ainda são as do escriba’’.
  Contra os santos furores dos combatentes que crêem deter o monopólio da verdade e das virtudes, o único remédio é a espera paciente. Enquanto isso, a leitura de Montaigne pode operar verdadeiros milagres. Com este sábio, sempre se aprende lições edificantes. Dentre elas destaco uma: ‘‘Seguros e convictos, há apenas os loucos’’. Excelente argumento e talvez metáfora ilustrativa da realidade que atualmente vive certa instituição superior de ensino das redondezas, já em avançado estado de decomposição.

MARCOS ANTÔNIO LOPES é professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina

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