ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Dom Orlando Brandes 
O mal sempre
nos desumaniza e não pára em nós, se
socializa, se espalha
por todos os cantos.
É o pecado social,
o mal do mundo,
a força das
estruturas perversas e perversoras
A vida é feita de bem e mal, luz e trevas, sofrimento e alegria, amor e ódio, paz e guerra. O pecado caiu no descrédito e assim mesmo o mistério do mal persiste, continua perturbando. Os justos sofrem, os ímpios festejam. Inocentes são executados e culpados são absolvidos. Parece que o mal não é para ser entendido, mas enfrentado e vencido. Não podemos colocar a culpa nos astros, nos espíritos dos antepassados, nem nos demônios, nem nas divindades. Deus do mal tira o bem e para tantos o mal é uma escola, um desafio: ''Quem não sofre não amadurece''. Muitos males são causados por nós mesmos e os maiores males e sofrimentos nem são os nossos. O sofrimento é relativo. Há pessoas que sofrem muito mais do que nós e são mais corajosas, decididas, vencedoras. É o mistério do mal. O império do mal.
O mistério do mal é tão inquietante que não raras vezes se apresenta em forma de bem. As tentações são sedutoras, o Maligno se reveste de anjo de luz: ''Sereis como deuses''. No mal e no pecado há muita ilusão. Somos tentados a partir de nossos pontos fracos e também dos pontos fortes, quando nos orgulhamos de nossos dons e diminuímos os outros. O pecado é aversão a Deus e uma conversão às criaturas. O mal sempre nos desumaniza e não pára em nós, se socializa, se espalha por todos os cantos. É o pecado social, o mal do mundo, a força das estruturas perversas e perversoras. Queremos mudar o mundo com a clonagem. Porém, sem a mudança de mentalidade, do coração, dos rumos da economia e da política, as clonagens dos gentlemen e madames serão atacadas pelo mal social e do mundo. Mas, o mundo pode ser diferente. O mal não tem e não terá a última palavra.
Somos bons e maus simultaneamente. Temos um inconsciente positivo e negativo, somos divididos interiormente. Já antes do sol nascer existia o mal. Nascemos feridos pelo mal e assim mesmo não podemos ser pessimistas nem ingênuos, mas lutadores. O mal deve ser enfrentado e vencido. Não tem a última palavra. Para a Bíblia, o mal ou melhor o pecado significa: errar o alvo, crescer torto, perversão, rebeldia, infidelidade, mergulho na iniquidade e não querer sair dela, petrificação no mal, ser auto-suficientes, ditar as regras. No Novo Testamento o pecado consiste em rejeitar a Jesus, não abrir-se ao reino, não deixar-se amar. São Paulo percebe o mistério do mal quando diz: ''Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero. Infeliz de mim'' (Rm 7, 19). Eis o mistério da iniquidade.
As diferentes religiões têm suas respostas ao mal, ao pecado, ao sofrimento. Os cristãos encontram a salvação em Jesus Cristo, morto e ressuscitado e nele seguem um processo de conversão, reconciliação, perdão e recriação. Todas as pessoas podem ser salvas segundo sua reta consciência onde Cristo atua. Não podemos dar mercado ao mal nem reforçar a ''solidariedade de perdição''. O mal nos tiraniza, bem e mal se digladiam em nós. Só resta um caminho: a decisão, a opção fundamental, porque a realidade da vida ou é de salvação ou de perdição. Esta realidade nos acompanhará até na hora da morte onde haverá a decisão última e estaremos face a face com o mistério. No entardecer de nossa vida seremos julgados pelo amor. Nosso advogado será o amor com que fizemos todas as coisas. O amor não terá fim. ''Então descansaremos e veremos. Veremos e amaremos. Amaremos e louvaremos. Eis o que haverá nos fim que não terá fim'' (Santo Agostinho).
A ''trindade do mal'' é a absolutização do ter, do prazer e do poder. São os ídolos escravizadores. Estes ídolos têm suas catedrais. Quem não aceita adorá-los passa a ser perdedor. Mas, sabemos que o bem é imortal. O caminho reto é: vencer o mal com o bem.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


