Qual o sentido
da truculência dos
militares e policiais?
O investimento maciço em
educação e redistribuição
de renda é o único
caminho viável
para sairmos
dessa situação

Há alguns anos, o astrônomo Carl Sagan escrevia um livro intitulado ''O Mundo assombrado pelos demônios'', uma obra mais filosófica do que propriamente física. Imaginei, ao lê-lo, ver o estudioso pensar em voz alta, dentro de seu pensamento extremamente coerente. Seu combate maior é relacionado às pseudociências e falsas verdades, as quais contribuem para que o mundo permaneça na miséria do desconhecimento. Em certa passagem, à qual me marcou sobremaneira, dizia Sagan que cada vez mais o demônio da ignorância (seu principal medo) assombrava o mundo. E, somado a este fato, afirmava que a mistura perigosa entre esta ignorância e o poder, ora ou outra, explodiria em nossas caras.
O recente caso do menino João Roberto Amorim, executado no Rio de Janeiro, e dos militares que invadiram o Morro da Providência e entregarem três jovens aos comandantes da favela rival, demonstram como Sagan não tinha dons proféticos, mas sabia enxergar com lucidez o mundo em que vivia. A força armada brasileira é o caso mais nítido do temerário envolvimento entre o poder bélico e a ignorância. Qual o sentido da truculência dos militares e policiais?
Vivemos em um país de tradição machista, onde a bebida, o cigarro, a força e o dinheiro contam como atributos para a demonstração da virilidade. Os covardes se valem do poder a eles imbuídos por tais elementos para superar a própria fraqueza. Nos casos em questão, prevaleceu a idéia da força desmedida a serviço do Estado dinossauro, o qual se move mal e lentamente. Pior ainda, sobrevive a idéia da impunidade e do desrespeito à lei, uma vez que nosso mal maior não é sua falta, mas seu cumprimento aleatório.
Os militares, por um lado, vivem uma situação periclitante. Assolados pela falta de investimento, pela formação brutal e ineficaz, com armamento ultrapassado e descrédito no meio civil, depois de 20 anos de ditadura, não deveriam estar nas ruas. Seu papel é o da defesa nacional, das fronteiras, cada vez mais desguarnecidas frente aos interesses internacionais, que se valem da falta de eficiência desta instituição. Não há preparação para o militar lidar com o público, com as pequenas escaramuças diárias, como o patrulhamento de ruas e a delinquência. Sua (ineficaz) formação refere-se a assuntos mais amplos e de interesse maior. Sua presença pelas ruas do Rio de Janeiro demonstra a que grau de inabilidade chegou a segurança pública carioca, tendo de apelar a métodos de guerra para combater o Estado paralelo.
Por outro lado, os policiais, agentes públicos pagos pelos pais do menino executado, precisavam mostrar algum serviço à sociedade que gera seus salários. Mais uma vez, fizeram-no da forma errada, com a imprudência (dizendo o mínimo) de fuzilar um carro parecido com o que perseguiam. Ordem pública? Não; demonstração de poder, aliada à ignorância de que a averiguação era o mínimo necessário a se fazer. Desejo animal instintivo, de marcar território contra os bandidos, contra o poder paralelo instituído. Sinal positivo? Talvez o da luta de alguns agentes contra o crime, em um mundo corrupto em virtude das circunstâncias ao redor (e não são todos, mas temos casos suficientes).
O investimento maciço em educação e redistribuição de renda é o único caminho viável para sairmos dessa situação. Enquanto estes setores continuarem a receber parcos investimentos, sobreviveremos em meio a uma ''armadilha da desigualdade'' que manterá, ao longo do tempo, a mesma cultura de ignorância e violência com a qual hoje convivemos. Isso contribuirá, cada vez mais, para que ações sádicas de oficiais mal-preparados (no caso do Exército) ou de policiais truculentos (no caso de João Roberto) tornem-se mais comuns, em uma luta na qual o maior prejudicado é o cidadão, pagador de seus impostos, cuja arrecadação somente cresce, enquanto o retorno não vem. Seremos prisioneiros de nossa nação, reféns da suposta ''ordem pública''. E nesse ponto perguntamos até quando?

LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina

mockup