Desperdício econômico e prejuízo ambiental
Alessandra Cabral Leite Duim
  O desperdício de medicamentos no Brasil é alto. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 20% de toda a produção farmacêutica vai parar no lixo. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) calcula que em torno de R$ 4 bilhões são jogados fora por ano. Cerca de 11.500 itens de medicamentos são produzidos só no Brasil e uma grande quantidade acaba com o prazo de validade vencido nos armários e depois é descartada diretamente no lixo ou esgoto. Não devia ser assim. Remédios são produtos químicos e podem causar riscos à saúde humana e sérios prejuízos ambientais.
  Atualmente, o monitoramento de fármacos no meio ambiente vem ganhando atenção especial devido ao fato de serem freqüentemente encontrados em estações de tratamento de esgoto, água de abastecimento e em matrizes ambientais tais como solo, sedimento e águas naturais. Estudos demonstram que os fármacos não são completamente removidos nas estações de tratamento de esgoto, além de resistentes a vários processos de tratamento convencional de água. Uma prova recente aconteceu no último dia 10 de março. Uma variedade de produtos farmacêuticos, incluindo antibióticos, anticonvulsivos, antidepressivos e até mesmo hormônios, foi encontrada na água que abastece as casas de pelo menos 41 milhões de americanos. As drogas detectadas atingiram as 24 maiores áreas metropolitanas do sul da Califórnia ao norte de Nova Jersey.
  Medicamentos vencidos são resíduos considerados de risco químico e devem ter tratamento e disposição final específicos, em locais previamente licenciados pelo órgão ambiental competente, para que não apresente risco à saúde ou ao meio ambiente, conforme resolução RDC 306/04 da Anvisa. O alerta já foi dado. Temos que buscar medidas para prevenir. Seriam fundamentais mudanças nos sistemas de monitoramento desses produtos no meio ambiente e melhor depuração de substâncias nocivas nas estações de tratamento. Uma maior conscientização da população contra o descarte de remédio não utilizados ou vencidos em lixo comum ou diretamente no meio ambiente também evitaria uma contaminação ainda maior.
ALESSANDRA CABRAL LEITE DUIM é estudante de Ciências Biológicas da UniFil em Londrina


Amar e temer a si mesmo
Walmor Macarini
  Há mais de dez anos falei de uma pesquisa feita pela Universidade de Campinas constatando que a causa principal do stress de crianças, em escolas daquela cidade, era o temor de Deus. Ensinadas que foram a temê-lo, essas crianças declararam que se sentiam vigiadas pelo olho severo de Deus em todas as ações que praticassem, e isto as deixava em pânico.
  Essa doutrinação - conforme escrevi na época - já ouvíamos nas aulas de catequese e continua até hoje, como advertência grave nos sermões, a ponto de haver-se transformado em poderosa arma de dominação. Que subjuga crianças e adultos. Não se pode interpretar ao pé da letra certas expressões do texto bíblico.
  Mas pouquíssimos são os que se dedicam a procurar o significado de tudo o que está li contido. Não é lendo um só livro e ouvindo uma só voz externa que o entendimento chegará. Tem sido mais cômodo que alguém passe as coisas já prontas. E os que ensinam a partir de crenças estratificadas sentem-se confortáveis em tal situação, porque não são questionados e nem chamados a explicar nada.
  Não há por que temer um suposto Deus de castigos. O homem deve, isto sim, temer a si próprio, porque ele é o senhor de seus movimentos, um atributo da outorga divina. Se não quiser buscar respostas por sua conta, esta é também uma livre decisão, porém as dúvidas e as atribulações persistirão.
  É o homem que castiga a si mesmo; e que se premia quando busca. E quem busca encontra - porque os portais se abrem para ele - mas para isso é preciso desprender-se dos grilhões que o atam e ingresse em seu santuário interior.
Ali, Deus que habita nele lhe dará todas as respostas. Alguém nos revelou que o Reino estava dentro de nós.
  Por não identificar Deus em si mesmo o homem o teme. E se o teme é porque não o reconhece. O homem foi gerado da luz mas tem dado preferência a viver na treva da ignorância. Só descobrindo-se do obscurantismo (tirando de cima de si o manto que oculta a claridade) e reconhecendo-se na luz reencontrará o elo perdido, conhecerá de novo a verdade e se tornará livre. Começar por nos amarmos uns aos outros será um grande passo para identificar Deus dentro de nós. A partir daí tudo será mais fácil.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

mockup