Remédios fracionados: desrespeito à saúde
Antonio Carlos Lopes
  Historicamente a indústria farmacêutica tem um compromisso inarredável com os cidadãos. É com esse pensamento que faz todos os esforços possíveis para adequar as embalagens de seus produtos às necessidades dos tratamentos. Assim é que no caso de antibióticos existem doses para sete dias, para dez dias e para 14 dias à disposição dos médicos, possibilitando que recomendem sempre a melhor opção aos pacientes, exatamente de acordo com a necessidade. Se certas vezes há sobras, muito se deve ao fato de o enfermo após alguns dias, ao sentir melhora, interromper o tratamento.
  No caos dos remédios OTC para pequenos mal-estares como dor de cabeça ou dor no corpo, a sobra pode ser utilizada em outra ocasião, sempre observando o prazo de validade - a maior parte dos analgésicos tem validade para cinco anos. Para os remédios de uso contínuo, a indústria farmacêutica procura produzir embalagens para a duração de um mês, fazendo assim com que a compra passe a ser um hábito mensal. Pensar em fracionar as embalagens e em vender a unidade ao mesmo preço unitário praticado hoje na embalagem maior desafia o mais reles princípio de economia.
  As embalagens vêm com vários dispositivos para evitar a violação. É um cuidado que visa exclusivamente a segurança dos consumidores. Quando falamos em fracionamento, ao abrir esta embalagem, a proteção se perderia e teríamos uma porta aberta para a proliferação de produtos falsificados ou roubados, e até com datas de validade adulteradas. Saúde não é brincadeira, e o cidadão não pode ser tratado como cobaia de projetos políticos. Um governo que não consegue controlar nem se as farmácias sonegam ou não, nunca seria capaz de garantir a segurança de uma embalagem fracionada. Trata-se de mais uma política de saúde de baixo nível, tão comum no governo atual.
  Se a idéia é diminuir gastos domésticos, eis nesta proposta um absurdo, uma falta de conhecimento dos fundamentos econômicos. Remédios de má qualidade ou de qualidade duvidosa no mercado só prejudicarão tratamentos, causarão perda de dinheiro aos cidadãos e ao Sistema Único de Saúde, que terá em suas filas casos graves que poderiam ter sido resolvidos numa fase primária com a medicação adequada e segura. O que necessitamos é de uma política de saúde que contemple o respeito ao cidadão, e com o SUS cumprindo com seu objetivo. Mais uma vez estamos diante de uma situação dantesca, criada por um governo também dantesco: está com dor de cabeça, corte o pescoço.
ANTONIO CARLOS LOPES é presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica


Lidera-te a ti mesmo, e ao mundo
Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
  Brasil e China são dois países em desenvolvimento que vêm se destacando no cenário global. Este momento pelo qual vivenciam, no entanto, traz a ambos a necessidade de decidirem seus perfis de liderança: situacional ou reformista.
  Países que, atualmente, possuem uma presença constante nos temas e decisões mundiais também passaram por este momento delicado. A análise da história do nascimento de suas hegemonias é marcada pela glória e pela vergonha: a glória sendo expressa pelas transformações positivas que foram empregadas no cenário mundial, enquanto que a vergonha sendo expressa pelos atos de dominação e de exploração sobre outros países.
  Isto mostra que liderar globalmente carrega consigo a responsabilidade (moral, financeira, política, social) para com outros povos e, ao não se pensar globalmente, corre-se o risco de a liderança passar a ser questionada, tanto de modo velado, quanto de modo violento.
  Brasil será novamente sede da Copa do Mundo. China sediará neste ano as Olimpíadas. É um bom começo, ou melhor, um bom cartão de visitas para os outros países, como costuma-se pensar. No entanto, a guerra do tráfico de drogas e a corrupção policial e judiciária no país tupiniquim, bem como a questão chinesa envolvendo o Tibete, constituem desafios internos a serem superados como pré-requisito para conquistar o respeito e a confiança do mundo.
  Não basta somente elaborar projetos de uso renovável de energia limpa, nem tampouco exibir recordes em crescimentos econômicos anuais; a liderança exige coragem para transformar as antigas estruturas que ainda sustentam as relações entre os povos. E a transformação começa quando os governantes transformam seus países. E isto é muito mais que um mero cartão de visita.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina da Universidade Estadual de Londrina

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