ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Dom Orlando Brandes 
A ternura tem poder
de mudar o ódio em
amor, a vingança
em perdão.
A ternura é o
futuro do mundo
Inocência é transparência, honestidade, fidelidade, coerência de vida. Símbolo da inocência é a criança. Sociologicamente falando, a inocência é a superação do espírito de arrogância, inveja, competição, corrupção e mentira.
Inocência é a glasnost, uma mudança cultural e ética dos povos e nações, que consiste na confiança entre as pessoas, na convivência solidária alicerçada no amor, na verdade, na justiça, na liberdade e no bem. Inocência é o estado de vida desejado pelo criador no paraíso, ou seja, vivermos como filhos de Deus, irmãos dos outros, amigos de nós mesmos, cuidadores da natureza. Vamos hoje refletir sobre a inocência na sociedade.
1. O principio de inocência. É a sociedade humana projetada por Deus: filiação divina, fraternidade humana, transformação da natureza, aceitação de si. Este princípio de ino-cência é o reino de Deus rezado na oração do Pai-Nosso: o pão, o irmão, o Pai, o bem. Portanto, o reino de Deus, o paraíso, o princípio de inocência, a sociedade solidária e a oração do Pai-Nosso, são a mesma coisa, são o sonho de Deus e a esperança de todos nós.
2. A saudade da inocência. Diz a psicologia transacional que nós carregamos em nossa psique a criança que fomos. Quando brincamos, sorrimos, dançamos, pulamos, cantamos, estamos liberando a criança. A infância de coração consiste em eu ser eu mesmo, deixar de representar papéis e personagens, enfim, viver a pessoa que sou. Quanto mais somos, mais comunicamos. Isso significa desistir das máscaras, das ficções do status, da aparência, do verniz e da pintura que cobrem e falsificam nosso ser real. Infância de coração é desistir de querer apresentar uma imagem colorida e de lutar por esta imagem irreal, quimérica e fantasmagórica. É preciso reconquistar a coragem de ser. A infância de coração devolve-nos o eu real. A saudade da inocência é a saudade de coerência, de humildade, de sinceridade, de honestidade. É a saudade de ser.
3. Infância e conversão. A criança confessa sua falta. Ela não racionaliza, não, não faz pose diante de Deus. Por isso, o reino dos céus será dado aos que se assemelham às crianças. Converter-se, mudar de vida implica em fazer-se criança. O arrependimento equivale a um renascimento, restitui a inocência. Aqui a criança é o modelo do adulto. Sem o espírito da infância não haverá ruptura com o pecado, não acontece a conversão. A saudade da inocência ressoa em cada coração seduzido pelo pecado. A conversão, restituindo-nos a inocência, traz com ela a saúde, o equilíbrio e a paz. O pecado desintegra a unidade da pessoa e desestrutura a personalidade, afetando a liberdade e a saúde mental. O pecado é inimigo da saúde. Uma boa consciência restabelece a saúde. A criança é símbolo desta inocência e integridade interior. É símbolo da consciência reta que preserva a cisão da personalidade, e possibilita relacionamentos sadios. Saudade da inocência significa, então, arrependimento, conversão, perdão, confissão dos pecados. É a conquista da unidade interior.
4. A primazia da ternura. Significa difundir uma mística de não-violência, pois sem a ternura a história e o futuro serão cemitérios da nossa civilização. Sem ternura o útero materno será matadouro de inocentes, a mulher será objeto do homem, o sexo um egoísmo a dois, e o pobre, vítima do poder. Sem ternura é impossível conviver. Sem ternura a velhice será um estorvo e a eutanásia um alívio. Sem ternura resta-nos o apocalipse. Sem ternura o homem é lobo do homem. Se não vos tornardes como crianças não entrareis no reino dos céus (Mt 18, 3). Amai-vos uns aos outros com amor terno e fraternal (Rm 12, 10). A ternura de Deus restaura nossa inocência pelo perdão. A ternura tem poder de mudar o ódio em amor, a vingança em perdão. A ternura é o futuro do mundo.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


