2008-1908-1808: comemorar o quê
Silvia Helena Raimundo de Carvalho
  Com a chegada das comemorações dos 100 anos da imigração japonesa no Brasil, me pergunto sobre nossas origens coloniais e a preservação de nossa história. A comemoração dos 500 anos do Descobrimento foi um fiasco. O anúncio de grandes festejos limitou-se a quase nada. E, agora, com os 200 anos da vinda da Família Real portuguesa ao Brasil estamos repetindo o descompasso. A data está sendo ofuscada pelo brilho do Imin 100. Não quero dizer com isso que sou contra as festividades em torno dos 100 anos da imigração japonesa, muito pelo contrário, participarei das festividades ativamente, reforçarei a reflexão sobre o impacto da cultura japonesa na nossa e como ela se estende até os dias de hoje.
  O fato é que, comparativamente, o memorial do bicentenário da vinda da Família Real está passando de modo imperceptível. Se questionarmos a população sobre a data da história do Brasil que também se comemora neste ano, poucos mencionarão este fato.
  Um povo só pode traçar seu futuro se antes conhecer seu passado e entender seu presente. Todo fato deixa marcas e essas devem ser usadas para nosso caminhar. No há quem negue que a vinda da Família Real mudou os rumos de nossa história e imprimiu o ritmo do desenvolvimento que conhecemos hoje.
  Enfim, tanto no que se refere ao Imin 100 como ao bicentenário da chegada da Família Real ao Brasil, não podemos permitir que a paixão dos festejos se sobreponha à curiosidade de se conhecer o inventário histórico. Sabemos que os fatos não foram tão gloriosos como os românticos historiadores os descreveram, versão essa que a escola reproduziu sem questionar e criticar. É chegada a hora de darmos o devido mérito a cada fato.
  Que todo esse cenário sirva de motivação para o resgate de nossas origens e o nascer da cultura do descobrir-nos continuamente e assim prosseguirmos na construção de uma nação mais justa e digna.

SILVIA HELENA RAIMUNDO DE CARVALHO é educadora, pedagoga e mestre em Educação em Londrina


Imigrantes, ou um dia com príncipes
Walmor Macarini
  Desde todos os tempos, estrangeiros têm aportado no Brasil, uns vindo espontaneamente e outros convidados, sob o aceno de enriquecimento. Os cafeicultores paulistas precisavam de mão-de-obra, com o fim da escravatura, e os olhares voltavam-se para as dificuldades de vida da gente de países europeus e do oriente. Imigrantes foram chamados e, no início, passaram grande dificuldade em terras brasileiras.
  Meus ancestrais italianos deixaram relatos de que havia dias em que um ovo era dividido em quatro pessoas, e era o que tinham, porque eles mal haviam começado a cultivar a terra. Com os japoneses, que agora celebram o centenário da imigração, também aconteceram momentos de privação e de perseguição política – porque, por coincidência, irrompeu em 1939 a segunda grande guerra (que durou 6 anos), e Alemanha, Japão e Itália formavam o eixo contra os aliados (sob o comando dos EUA), aos quais o Brasil se juntara.
  Meus avós em Santa Catarina foram isolados temporariamente em campos de concentração. Isto mesmo. Era uma medida de precaução porque os velhos defendiam Mussolini e suas tropas e influenciavam filhos e netos. Lembro-me que em minha pequena cidade havia proteção anti-aérea, em forma de porões subterrâneos em cada residência. A iluminação pública era apagada. Eram os italianos protegendo-se, porque aviões faziam vôos baixos, à noite, certamente como intimidação. No Brasil os japoneses também foram penalizados por isso.
  Este assunto foge dos meus temas costumeiros, mas faço-o pela oportunidade da celebração do Imin 100. Porque os imigrantes encontraram no Brasil um abrigo, também sofreram muito mas deixaram seu legado. Marcadamente portugueses (a começar dos quinhentistas), italianos, alemães, japoneses, espanhóis, árabes, polacos. Dos japoneses, lembro-me que quando cheguei a Londrina fiquei admirado com o primeiro que vi, pois só os conhecia pelas imagens da guerra. Os EUA disseminavam doutrinação anti-Hitler, anti-Mussolini e anti-Hiroito por via de revistas e gibis.
  E guardo boa imagem do Japão, que visitei duas vezes. Com certa vaidade, lembro que, compondo um grupo de empresários paranaenses, em viagem oficial, fomos recebidos no Palácio Imperial pelos então príncipes Akihito (hoje imperador) e sua mulher, a princesa Michiko. Tive a oportunidade de conversar durante bons minutos com ambos. Essa recepção foi uma deferência rara. Conto porque, afinal, não é todo dia que se fala com príncipes!

WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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