Esse povo de
gente pequena e incomensurável em sua força e determinação
tem qualidades que
almejamos alcançar:
paciência, equilíbrio,
discrição e lealdade



  Décadas atrás, os japonesinhos apresentavam muitas dificuldades de aprendizado na sala de aula no Brasil, principalmente, em relação ao idioma. Conseqüentemente, sofriam muita discriminação e generalização em relação à sua inteligência. Não os vimos reclamar, protestar ou solicitar tratamento especial e nem se engajar em movimentos que a meu ver enaltecem ainda mais a discriminação, tais como a reserva de cotas.
  No silêncio de sua sabedoria, invisíveis, quietos como ninjas foram se infiltrando em nossa sociedade sem que nos déssemos conta. Essa minoria não foi sobrepujada pela nossa maioria populacional, ao contrário, modificou para sempre a nossa cultura e quiçá consigamos aprender ainda mais com esse povo milenar que, na aparente humildade, obtém sua grandiosidade. Sem abandonar suas raízes e cultura, mesmo a quilômetros da sua terra natal, foram nos modificando. Hoje adoramos sushi, sashimi, praticamos suas artes marciais, enfeitamos a casa com ikebanas, compramos objetos com ideogramas, utilizamos sua medicina na acupuntura, shiatsu e do-in. Um mar sem fim de influências sorrateiras e permanentes.
  Embora pratiquemos muitas de suas artes, ainda não atingimos sua sabedoria e nem sempre captamos o sentido verdadeiro, a essência, presente em cada gesto, arte ou expressões lingüísticas. Esse povo de gente pequena e incomensurável em sua força e determinação, tem qualidades que almejamos alcançar e que parece cada vez mais distante de nossa sociedade: paciência, equilíbrio, discrição, lealdade, etc. Esses atributos são resultados de toda uma cultura de vida que cultiva a interiorização e a reflexão: comer com hashi, faz com que a refeição seja lenta, moderada e com tempo para partilhar esses momentos únicos com amigos e família. O saquê eleva os ânimos e faz brotar a alegria e descontração, mas sempre tomado entre amigos ou família onde qualquer excesso está num ambiente privado. Cultivar um bonsai leva muitos anos e ensina que os cuidados com a vida são exercícios diários, pacientes e perenes. Da mesma maneira passam a cuidar e respeitar os mais velhos e antepassados, não como uma obrigação, mas com gratidão e admiração.
  Integram-se em grupos culturais praticando sua arte típica, esporte, culinária e conversação na língua mãe. Todos eles com significados e simbologias próprias, milenares e que dão sentido ao que se pratica. A disciplina aplicada é sempre muito rigorosa como na obtenção de graus mais elevados seja no taiko ou no kumom. Há que se ter sempre um empenho grande, uma dedicação, persistência, concentração, tolerância à frustração para se atingir os objetivos. Outras práticas são verdadeiros desafios a nós ocidentais da sociedade moderna, a cerimônia do chá, por exemplo, paciência e concentração quase impossível a nós. Toda essa cultura prática, conhecimento tácito, desenvolve esses atributos que tanto buscamos e que levam à interiorização, reflexão e equilíbrio da mente. Literalmente a cultura da paz interior e bem-estar.
  Não é à toa que esta nação ostenta os mais altos índices de expectativa de vida, um dos menores índices criminais do mundo desenvolvido - e o homicídio é um crime raro - um dos maiores índices de recuperação da população carcerária, um dos mais altos índices de escolaridade e renda per capita. Seria ingênuo de nossa parte não admitir também que essa realidade além de estar mudando, também apresenta índices negativos e tem muitos problemas que lhe são peculiares, mas o momento é de comemoração e alegria, de olhar para as coisas boas, o que condiz com sua filosofia de vida e me lembra a letra de uma de suas músicas chamada ‘‘Ue wo muite arokou’’: ‘‘caminhe olhando para cima, assim as lágrimas não caem’’.
  Hoje, os descendentes nipônicos (os nikkeis) dessa geração de imigrantes, seguindo o caminho inverso de seus ancestrais vão para o Japão atraídos por salários bem mais elevados em comparação ao Brasil, apesar de recrutados como mão-de-obra barata e não-qualificada. Certamente também influenciarão muito a cultura japonesa e deixarão marcas permanentes do Brasil. Faço hoje a todos vocês, em nome da nossa sociedade, o gesto típico de sua cultura, a reverência, o curvar a cabeça em homenagem ao povo japonês.
  Arigatou gozaimasu - muito obrigado -, é só o que podemos dizer a esse povo que nos dá o privilégio de sua convivência e que fez do Brasil a sua terra e de seus descendentes, por tudo que tem nos ensinado, pelo exemplo que nos dão, pela influência silenciosa. Aos descendentes só podemos pedir que continuem a conservar, como nenhuma outra cultura o faz, as tradições desse povo tão admiravelmente sábio.
  Okaerimasai - bem-vindo - príncipe Naruhito!

MARISTELA DE MELLO KOSINSKI é psicóloga em Londrina

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