No Brasil, Estado
forte tem sido
sinônimo de
autoritarismo
arbitrariedade,
burocracia e
corporativismo



  O sociólogo Alain Touraine prega o aumento da capacidade de intervenção do Estado como forma de o país atenuar as desigualdades sociais. O Estado tem sido fraco para debelar as mazelas sociais, a partir da violência do campo e nas cidades. E por conta disso, o governo tem agido no varejo, trabalhando no curto prazo, com o presidente praticamente se limitando a fazer política de conchavos para conseguir operar a administração.
  Libelo candente contra os ultraliberais, para quem o mercado é a panacéia para todos os nossos males, a análise do professor não deixa de ser um hino de louvor às utopias. Pois Estado forte, no Brasil, tem sido sinônimo de autoritarismo, arbitrariedade, estrutura burocrática ineficiente e corporativismo.
  Como liberar o Estado do universo corporativo, como prega Touraine, dando-lhe uma capacidade de manobra, de orientação a longo prazo, sem uma profunda reforma política, capaz de deflagrar novos costumes e consolidar nossas instituições?
  Só mesmo uma visão utópica é capaz de colocar na mesma equação componentes como liberalismo, eliminação de desigualdades sociais, Estado forte, maior institucionalização política, extinção do corporativismo e clientelismo.
  O fortalecimento do poder de decisão do Estado é uma meta que deve ser perseguida, até para se combater a cultura dos interesses individuais e grupais que, entre nós, prevalece sobre as políticas sociais. Mas este é um desafio que ultrapassa décadas, não sendo objeto de consideração de um só governo.
  Da maneira como a questão é abordada pela mídia, pareceu que o professor Touraine puxa as orelhas dos nossos governantes. Se Lula usa a lista de cargos ou o orçamento para lidar com o sistema político, é porque sabe que tais instrumentos são os mais adequados para pavimentar o caminho das reformas.
  Como reformador, Luiz Inácio tem sido pouco eficaz. Procura combinar uma tática de ataque frontal com a estratégia paulatina, de operação por setor. A ciência política ensina que o reformador deve isolar cada questão o mais depressa possível, retirando-a da agenda política antes que os seus oponentes possam mobilizar suas forças. Se quiser tentar fazer tudo ao mesmo tempo, termina por conseguir muito pouco ou nada. Se angariar condições para operar em escala global, à base da blitzkrieg, é claro que deve fazer o cerco por todos os lados, rapidamente, antes que a oposição seja ativada.
  É assim que o país sobe a escada da mudança. Nos últimos anos, deu importantes passos no caminho da modernização. Com o Real, plantou a base para construir o edifício da estabilidade. Seu desafio, agora, é andar num ritmo mais apressado. Touraine sabe disso. Reformar o Estado não é tarefa para uma só legislatura. Maquiavel já lembrava que nada é mais difícil de executar, mais duvidoso de obter êxito ou mais perigoso de manejar do que iniciar uma nova ordem de coisas. O reformador tem inimigos na velha ordem, que se sentem ameaçados pela perda de privilégios, e defensores tímidos na nova ordem, temerosos que as coisas não dêem certo.
  Qualquer análise sobre o sistema político há de contemplar a complexidade da dialética da mudança. Conceito correto como o do professor Touraine esbarra na extrema dificuldade de se transformar em atos pragmáticos. Como fazer o Estado mais forte com a debilidade de nossas instituições? Como aparar as desigualdades sociais, com programas liberais, que dão vazão a climas concorrenciais e suas conseqüências sobre a corrente dos marginalizados? Como deixar de atender a um parlamentar dos grotões, que sem clientelismo é expurgado da política? As respostas dão a exata dimensão do busílis.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da USP e consultor político em São Paulo

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