ESPAÇO ABERTO
O SUS em construção
Alberto Durán González
O Sistema Único de Saúde (SUS) está completando 20 anos. Enganam-se os que pensam que o SUS já está construído. Sua construção se dá de acordo com o processo de saúde-doença da população. Após muitos avanços e conquistas, o SUS vive ainda hoje seu constante gargalo: o financiamento. Desde sua conquista, o SUS e seus usuários sofrem com um financiamento inadequado e instável que impede a universalidade e a resolutividade nos serviços básicos. Trabalhadores de saúde sofrem com baixos salários e com a limitação imposta por serviços mal geridos e sucateados. Mesmo neste contexto desfavorável, o SUS demonstra suas qualidades com imensa oferta de serviços e inclusão social. Em 2007 foram realizados 2,7 bilhões de procedimentos ambulatoriais com 610 milhões de consultas e 403 milhões de exames laboratoriais. Tudo isto com um financiamento de US$ 236 por brasileiro ano.
Estes números não são apresentados com o objetivo de esconder os dados negativos do setor saúde ou para dizer que um financiamento melhor resolveria todos os problemas do SUS. Queremos sim demonstrar que o país que decidiu ter um sistema de saúde universal deve priorizá-lo com um financiamento seguro e adequado. Os recursos para saúde devem ser entendidos como investimento na população brasileira e não gastos sem retorno. Uma gestão dos serviços de saúde mais eficiente e transparente também deve ser pautada em nossas discussões. A qualidade do atendimento e sua humanização deve ser o elo entre trabalhadores de saúde e usuários do sistema. O usuário é o centro de nosso modelo de atenção e de nossos esforços.
O Centro Brasileiro de Estudos em Saúde - Cebes núcleo Londrina - é a favor da Emenda Constitucional 29 aprovada pelo Senado. Acreditamos que sua aprovação é possível sem a criação da Contribuição Social da Saúde (CSS). Defendemos um SUS universal, humanizado e com qualidade para todos os cidadãos. Devemos conhecer o SUS não para aceitá-lo, mas para assumir o compromisso de todo cidadão em sua construção. A população possui direitos garantidos e deveres assumidos com o controle social e deve atuar em parceria com os gestores na identificação de problemas e construção de soluções. Sua participação crítica, reflexiva e propositiva é essencial para a construção de nosso ainda inacabado SUS.
ALBERTO DURÁN GONZÁLEZ é professor do departamento de Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Londrina e coordenador do Centro Brasileiro de Estudos em Saúde Núcleo Londrina
A sra. Park treme no túmulo
Nelio Roberto dos Reis
O preconceito racial é indigno do ser humano, mas existe. Nos Estados Unidos, a Ku Klux Klan até pouco tempo queimava pessoas pelo simples motivo da cor da sua pele. Sociedade secreta, a KKK se constituiu após a Guerra da Secessão para impedir os negros de fazerem uso de seus direitos políticos. Para isso, utilizou-se da intimidação e da violência. Foi impedida de agir como sociedade secreta em 1928, mas continua atuando no sul dos EUA. Ilustração didática em Mississipi em Chamas.
Malcom X é outro líder nacionalista negro, que mesmo deixando de ser racista, foi assassinado em 1965. Prêmio Nobel da Paz, o pastor Martin Luther King tornou-se líder dos negros por defender a luta sem violência e também assassinado em 1968. Os estados do sul norte-americanos impediam a matrícula de crianças negras em escolas de branco. Em 1961, John F. Kennedy estabeleceu a condição de igualdade e de oportunidade de emprego. Dois anos, foi aprovada no Congresso a lei dos direitos civis que proibiu a discriminação de raça, cor, credo e nacionalidade. Kennedy acabou assassinado.
A virada de atitude sobre o preconceito nos EUA não começou em 2008 com Barack Obama. Foi quando a negra Rosa Park se recusou a ceder seu lugar a um branco em um ônibus, em 1955. Ela foi presa dando origem ao maior boicote dos negros sobre os ônibus no Alabama. Se estivesse viva, Rosa morreria agora ao ver Barack Obama escolhido candidato dos democratas a presidente do seu país. Rosa Park era do tempo onde se via um cantor de jazz negro ser interpretado por um branco pintado com uma ridícula tinta preta (como no filme The Jazz Singer). A sra. Park teve na vida real a mesma audácia que Sidney Pottier teve no filme O calor da noite dando um vigoroso tapa em um branco. Inconcebível para a época.
O que vai acontecer com Obama? Lembre-se que nos EUA não existe bala perdida como no Brasil. Lá, as balas são direcionadas. É muito mais difícil matar três mil pessoas com aviões nas torres gêmeas do que atingir alguém que veio pôr fim a uma era com a intenção de mudar as alegrias, os pretextos, a compaixão, o autoconhecimento nesse país que por muito tempo viveu da arrogância e da prepotência. Um negro governando a América do Norte, inclusive.
NELIO ROBERTO DOS REIS é professor na Universidade Estadual de Londrina





