Fome no mundo tem nome: EUA e Europa
Edson Pereira Filho
  As bolsas de valores de todo mundo fecharam em queda, na última sexta-feira, devido ao crescimento do desemprego americano que empurrou a cotação do petróleo e do dólar (R$ 1,65) para cima. O petróleo foi para o patamar de US$ 134 dólares o barril e na fila do desemprego ficaram mais 860 mil americanos em maio. Total de 8,5 milhões de desempregados nos EUA.
  O consumo americano irá diminuir consideravelmente. Isto acarretará queda nas exportações para China já que os americanos são seus maiores consumidores. De roldão, o Brasil deixa de vender mais commodities para a China, maior consumidor de grãos no mundo. A crise bate à porta. O Paraná terá que plantar mais, no mesmo espaço, com baixo custo. Além da crise americana, empurrada também por seu setor imobiliário, o Governo Bush irá desembolsar US$ 290 bilhões de dólares nos próximos 5 anos para subvencionar sua agricultura. Os agricultores brasileiros terão mais dificuldades ainda. Talvez, essas duas questões os desestimulem a plantar. E o agricultor se pergunta: como ser competitivo num ambiente de crise e de competição desleal promovida pelo subsídio americano e europeu?
  Mantido o cenário de aumentos sucessivos de preços das commodities agrícolas no mercado mundial, a agricultura brasileira atravessará a crise. Mas se os subsídios dos EUA e europeus derem conta da produção agrícola mundial, os preços ficarão estáveis, baixos portanto, tirando a competitividade do Brasil lá fora. O petróleo deve atingir a cifra de US$ 150 dólares em julho, segundo a agência Morgan Stanley. Os boatos nas bolsas de todo mundo são a mola propulsora deste aumento do petróleo, aliás, ele subiu 40% no preço do barril só este ano, e não houve guerra ou qualquer outro motivo que sacudisse para cima tais projeções consolidadas. Esta é uma estratégia das empresas de petróleo, que querem forçar o preço para cima.
  Fato que o consumidor pagará toda esta conta. Principalmente, no alimento. A crise de alimento denunciada pela FAO, órgão das Nações Unidas que cuida da segurança alimentar no mundo, que cobra dos países ricos e emergentes que dobrem sua produção de alimentos para que populações inteiras não fiquem sem eles. O Brasil, não fosse a subvenção americana e da comunidade européia, teria papel importante nesta conjuntura.
EDSON PEREIRA FILHO é jornalista da FOLHA DE LONDRINA

O fator previdenciário

Paulo César Regis de Souza
  Vi muita coisa nos últimos dias contra a extinção do fator previdenciário. Coisas dignas da fina flor de supostos ‘‘especialistas’’ em Previdência, terceirizados, pré-pagos e com código de barra. Coisas de terrorismo de Estado. Do mesmo gênero que antecederam à derrubada da CPMF. Se acabar o fator, as despesas da Previdência chegarão aos 23% do PIB. Se acabar, é o caos. Se acabar o tempo de contribuição passará de 35 para 42 anos. Em 10 anos, o fator previdenciário gerou uma economia de R$ 10,1 bilhões, sendo R$ 23,1 milhões em 2000 e R$ 3,4 bilhões em 2007!
  Mas não dizem quantas vidas foram sacrificadas, quanto de infortúnio, infelicidade, desesperança disseminou. Não admite que foram desrespeitados os direitos adquiridos, as garantias constitucionais. Vejam o absurdo dos que defendem o tal fator: o valor médio dos benefícios concedidos pela Previdência foram de R$ 304,00 em 2000 (mínimo de R$ 153) ; R$ 339,81 em 2001 (mínimo de R$ 175,00) ; R$ 379,66 em 2002 (mínimo de R$ 198,00), R$ 451,00 em 2003 (mínimo de R$ 234,00); R$ 471,65 em 2004 (mínimo de R$ 257,00); R$ 524,70 em 2005 (mínimo de R$ 290,00); R$ 579,10 em 2006 (mínimo de R$ 340,00), R$ 614,76 em 2007 (mínimo de 373,00) e R$ 654,87 em mar de 2008 (mínimo de R$ 415,00).
  O sonho de se aposentar com dez salários virou pó. Sonharam que teriam segurança e tranqüilidade na velhice. Encontraram com a guilhotina do fator previdenciário a insegurança, a incerteza, a incredulidade. Tudo virou pesadelo, desventura, desalento, estresse, depressão, empobrecimento e miséria para esta massa que é maior do que a população do Chile.
  O fator previdenciário foi criado para reduzir o déficit da Previdência. Mas este só avançou entre 2000 e 2008, sendo de R$ 12,9 bilhões em 2000; R$ 15.2 bilhões em 2001; 18,3 bilhões em 2002; R$ 28,6 bilhões em 2003, R$ 32,7 bilhões em 2004, 38,2 bilhões em 2005, 44,9 bilhões em 2006 e R$ 46,0 bilhões em 2007. Achatar benefícios é a pior alternativa para a Previdência. Vai na contramão da história, vai contra o princípio elementar dela: prover a subsistência de quem contribuiu para um final de vida feliz e tranqüilo. Reflitamos sobre isso, enquanto há tempo.
PAULO CÉSAR REGIS DE SOUZA é presidente da Associação Nacional dos Servidores da Previdência e da Seguridade Social

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