Maquinações envolvem empresários, políticos e quadros da administração
  Sob a baforada de um imenso charuto, Winston Churchill definiu para um persistente repórter a diferença entre a vulgaridade e a grandeza na política: ‘‘O político medíocre preocupa-se com as próximas eleições, o verdadeiro estadista preocupa-se com as próximas gerações’’. Quando a lapidar sentença foi pronunciada, poucas dúvidas havia sobre o poderio avassalador e triunfante do Ocidente em relação a outras civilizações. Não era difícil, na época, identificar perfis, como o do primeiro-ministro inglês, voltados à tarefa de pavimentar os caminhos do futuro. Nas últimas cinco décadas, apesar da desintegração da URSS, uma reviravolta jogou a imagem do império ocidental na rota do declínio. Hoje, sua parcela de poder político, econômico e militar mundial decresce. Se inserirmos na moldura a posição ocupada pela China, dilui-se, mais ainda, a idéia-força do Ocidente como civilização capaz de afetar a política, a economia e a segurança do planeta. Sob o intenso processo de deslocamento de poder para o Oriente e a monumental carga de problemas do lado de cá, a assertiva de Churchill funciona como um puxão de orelhas nas lideranças desses tempos medíocres.
  Onde estão os estadistas? Quem é capaz de apontar um deles dentre os atuais mandatários mundiais? George W. Bush está estraçalhado. Nicolas Sarkozy é um poço de polêmica. A primeira-ministra alemã Angela Merkel não tem carisma. O novo presidente russo Dmitri Medvedev é delegado de Vladimir Putin, este ex-agente da KGB. O presidente chinês Hu Jintao (quem se lembra da cara dele?) parece um gerentão às voltas com produtividade. O primeiro-ministro inglês Gordon Brown é um caso de queda rápida de popularidade. Seria Luiz Inácio um estadista? No ar, além da provocação fica o desafio para se apontar um estadista. Enquanto isso, entendamos que o fenômeno da maré vazante se agiganta porque a modernidade mudou os eixos da política. Tudo foi por água abaixo com o esfacelamento das doutrinas. A queda do Muro de Berlim representou um marco. A democracia representativa, em novo formato, saiu da sala de estar dos valores para entrar na cozinha dos negócios. O socialismo de ontem passou a acolher o livre mercado. Os conflitos mudaram a razão: a arena de interesses invadiu o campo das idéias. E os mecanismos clássicos da política - partidos, representantes, parlamentos, voto - perderam substância. A imagem de fundo, resplandecente, é a do Estado-Espetáculo, onde se erigiu o altar da personalização do poder. É aí, sob o holofote da mídia, que cresce uma floresta de narcisos.
  O cidadanismo, por sua vez, constrói fortalezas para a defesa de segmentos. Multiplicam-se as entidades intermediárias. Basta ver o terceiro setor saltando de 276 mil entidades, em 2002, para cerca de 340 mil em 2005, segundo o IBGE. Já a política partidária falha no atendimento aos anseios coletivos. A sociedade distancia-se da esfera política. Partidos queimam ideários. Em vez de escola de cidadania para formar líderes, transformam-se em abrigos para acolher pessoas que usam a representação como escada de ascensão. O conceito aristotélico de política - missão a serviço da utilidade coletiva - parece não caber no bolso do utilitarismo. O negócio político torna-se rentável, provocando ferocidade na competição. Tanto que o número de candidatos por eleitor, na área de deputado federal, em 1998, era de 3,2 e, hoje, chega perto de 8.
  Forte como nunca, o Executivo manobra o sistema parlamentar, surrupiando parte de sua independência. A torneira aberta abre fissuras na malha administrativa. Maquinações envolvem empresários, políticos e quadros da administração. Os espaços abertos na administração vão contribuindo para expandir o PIB da corrupção. Estranha teia se constrói entre o sindicalismo e os fios do Estado. Isso explica, por exemplo, o episódio envolvendo o deputado Paulinho da Força (não há aqui nenhum juízo de valor), centrais sindicais, partidos políticos e burocracia. A feição da política brasileira nunca esteve tão esburacada como nesses tempos de palanque aberto.
  Se o leitor chegou a este final sem haver descoberto um estadista da atualidade, não deve desistir. Faça um preito ao velho Winston, lutando, a seu modo, para formar cidadãos que pensem nas gerações futuras.

GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da USP e consultor político em São Paulo

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