‘Efeito Volker’

Antonio Delfim Netto
  Ao autorizar o Ministro da Fazenda a realizar uma economia efetiva nos gastos da administração pública de mais uns R$ 13 bilhões (algo como 0.5% do PIB deste ano) o presidente Lula mostrou que está disposto a tomar decisões amargas para ajudar no combate à alta do custo de vida, ao mesmo tempo em que dá ao Banco Central (BC) a oportunidade de usar com moderação a ferramenta dos juros no seu objetivo de atingir a meta inflacionária. O presidente sabe que a inflação é a grande inimiga porque é ela que consome o salário do trabalhador. Sabe também que quem cria o emprego que garante o salário que sustenta o consumo é o setor privado e por isso se tiver que cortar demanda tem que ser a do setor público. Foi isso que levou o governo a ampliar o esforço fiscal para ajudar o BC a cumprir a meta sem produzir maior estrago no ânimo de investimento dos empresários e, por conseqüência, nos níveis de emprego e no crescimento da economia. É importante que os recursos do Fundo fiquem efetivamente no Tesouro Nacional. Eles não devem ser usados para reduzir a dívida pública como queria o BC, porque seria como se o governo cobrasse o imposto do cidadão quando ele compra feijão e em seguida repassasse o recurso para o banqueiro aplicar em outra atividade qualquer. Se é para cortar a demanda, os recursos devem permanecer guardados para serem utilizados em momentos de tempestade.
  Convém anotar o que disse esta semana o experiente economista Paul Volker, que comandou o Federal Reserve (o BC americano) durante a grande crise dos preços do petróleo nos anos 70/80. Ele sugere que moderemos o entusiasmo com o sucesso das vendas de nossas commodities porque essa valorização não dura para sempre. Devemos estar preparados para quando terminar a bonança no comércio exterior. Hoje temos segurança energética e somos autosuficientes em petróleo e em alimentos e, portanto, menos vulneráveis. O problema é que a crise que muitos esperavam atingisse a economia mundial por conta das patifarias das hipotecas ficou circunscrita aos mercados financeiros. A crise, mesmo, virá quando os Estados Unidos decidirem fazer o ajuste no escandaloso déficit em conta corrente que já é de 7% do seu PIB. Isso passa por uma forte elevação dos juros e aí sim, por uma inevitável recessão na economia americana e seus reflexos no resto do mundo. Mais dia, menos dia o novo governo dos EUA, eleito em novembro, vai ter que fazer o ajuste, sempre doloroso.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento


Atual cenário brasileiro

Ardisson Naim Akel
  Se por um lado há um aquecimento na demanda brasileira e alguns setores vêm apresentando crescimento em suas vendas, de outro, continuamos a conviver com a pressão da carga tributária, com medidas retrogradas na área trabalhista e com o escalonamento da taxa de juros que mais uma vez é a maior do Planeta. A Câmara Federal discute a criação da Contribuição Social para Saúde (CCS), antiga CPMF. É fato que a área da saúde necessita urgentemente de investimentos, todavia, a previsão é que o governo receba este ano R$ 40 bilhões a mais do que o previsto, não se justificando dessa forma um novo aumento na carga tributária para atender à Emenda 29, que trata de investimentos nesse setor. A CSS é incongruente no momento em que se lança uma nova Política Industrial e se busca a Reforma Tributária. Essa, porém, não é a única medida que volta de forma inoportuna à nossa pauta. A Emenda Constitucional 393/01 com vistas a reduzir a jornada de trabalho de 44 para 40 horas, sem diminuição de salários, aparece justamente num momento em que o mercado apresenta maior demanda de mão-de-obra qualificada. Nesse caso específico, devemos retomar a luta pela redução dos encargos sobre a folha salarial.
  A redução da jornada é, de certa forma, um fator inflacionário, pois 10% a menos de horas trabalhadas significam 10% a mais no custo da mão-de-obra. Fator negativo no processo de estímulo da atividade econômica formal. Outro fator inflacionário é o aumento da taxa de juros, tendo em vista que esse aumento se incorpora nos custos das empresas. Sendo assim, pressiona a inflação, e não a reduz, como muitos acreditam. Devemos evitar medidas que acabam por reduzir nossa competitividade. Especialmente no momento em que o Brasil atravessa uma fase de expansão, promovida por uma conjuntura internacional favorável ao seu crescimento, pelo aumento da demanda de alimentos e de produtos energéticos, que pedem nosso álcool, nossa energia verde renovável, a partir da cana-de-açúcar de alta produtividade. Cenário que permite perspectiva ainda mais favorável para a nossa economia nos próximos anos, apesar da tendência inflacionária mundial e que se reflete em nosso país.
ARDISSON NAIM AKEL é presidente da Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Paraná (Faciap)

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