Mais do que um currículo bom e um salário mensal, o foco de um estudante deve priorizar o aprendizado. E durante a vida acadêmica, para que esse aprendizado ocorra de maneira integral, a prática se torna primordial no processo. O estágio é uma das formas da obtenção dessa experiência prática. Portanto, o estágio não deve ser encarado como um mero trabalho, mas, visto como um facilitador na construção do conhecimento, algo que vá além de uma simples função do organograma da organização.
  Entretanto, a maioria das organizações não consegue compreender isso. Não é de se espantar as sátiras que existem entre os próprios estudantes que exercem a prática do estágio: ‘‘Sou escragiário’’, ‘‘estagiário só serve para levar cafezinho’’! O estudante na maioria das vezes ainda não está preparado intelectual e profissionalmente para exercer cargos de alto nível. Entretanto, é inadmissível que o mesmo execute tarefas de cunho simplesmente operacionais. O operacional pode até gerar algum conhecimento, algum aprendizado mas não o suficiente para que o estudante cresça intelectualmente, profissionalmente ou moralmente.
  Mas nem sempre a culpa é tão-somente das organizações. Em muitos casos, o próprio estudante deixa-se inferiorizar. O ‘‘x da questão’’ está em: o estudante aceita receber remuneração baixa em atividades não correlatas ao seu curso de graduação porque muitas vezes, a sua própria situação econômica o obriga a isso. Torna-se um círculo vicioso. Em uma sociedade tão marcada pela desigualdade, nem mesmo os estudantes do ensino superior escapam desse processo. A própria popularização e facilidade de acesso ao ensino superior facilita para que cada vez mais estudantes se subordinem a atividades que acarretarão valor nenhum ao seu currículo e nenhum aprendizado na graduação.
  Ainda é necessário frisar que o estágio, na sua essência de aprendizado e crescimento, ocorre em poucas organizações. Se por um lado a situação econômica obriga parte dos estudantes a ser ‘‘estagiários de chão de fábrica’’, por outro deveria haver maior fiscalização sobre as primeiras. Algumas agências afirmam que ‘‘fiscalizam’’ a prática de estágio pelos alunos, portanto, cabe questionar: por que a opinião da sociedade acerca do estágio e do estagiário não muda? O sentimento a muitos estudantes na verdade é: a minha graduação está acabando e o que eu fiz do meu currículo? Não é de se espantar o número destacável de recém-formados que não consegue boa colocação no mercado de trabalho. Só os mais bem preparados chegam lá. E entre os estagiários, só chegam os que fizeram estágios verdadeiros aprendendo Administração, Economia ou Direito na essência, por exemplo.
  Em alguns casos, a própria estrutura da educação brasileira corrobora a estrutura precária do estágio. O aluno já vem ‘‘com defeito’’ do ensino médio e torna-se complexo consertá-lo no ensino superior. O universitário não está, na maioria das vezes, preparado à reflexão e ao contexto verdadeiro do aprendizado pois ele não foi induzido a isso desde o início de sua vida escolar. As marcas do subdesenvolvimento estão visíveis e aparentes sendo que, muitos universitários querem apenas ter um diploma porque o mercado de trabalho exige isso deles. E da mesma forma pensam sobre o estágio: apenas mais uma empresa, mais um salário, mais uma função. E os que deveriam ser peças-chaves na reversão desse quadro, por vezes se calam fingindo que tudo está bem (pais, os próprios estudantes e até mesmo alguns educadores). A crise do estágio pode, em muitos casos, estar atrelada à própria crise da educação que não prepara o estudante de forma satisfatória para o desempenho do verdadeiro estágio.
  Enquanto a educação universitária não alcançar os padrões de qualidade de ensino encontrado nos países desenvolvidos, só acarretará atraso no crescimento e desenvolvimento da nação e os cidadãos que dela fazem parte. O estagiário como futuro profissional faz parte desse processo. Os verdadeiros educadores não podem calar-se diante da prática exploratória de alguns estágios. E as verdadeiras organizações, as socialmente responsáveis (palavras bonitas, mas nem sempre praticadas), ao contratar estagiários, devem contratar aprendizes, permitindo que as teorias e discussões aprendidas em sala de aula, se tornem prática e façam parte de suas vidas. Entristece saber que o estágio em sua verdadeira essência e propósitos, ainda é praticamente uma utopia.

MAURICIO DONAVAN RODRIGUES PANIZA é estudante de Administração na Pontifícia Universidade Católica do Paraná em Londrina

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