Teatro para perseverantes
Telma Gimenez
  São 14 espetáculos internacionais e 26 grupos brasileiros que, entre 4 e 22 de junho, permitirão à cidade viver a efervescência do Filo, agora em seu quadragésimo ano. Não é um feito para ser negligenciado. Ao longo do tempo o Festival ganhou importância e tornou-se um presente para quem vive à míngua durante o resto do ano. Para alguns, durante três semanas será um período de pura e desejada ‘‘overdose’’. Para outros a rara chance de ver a arte acessível, antes não imaginada. Realizar o Filo, acredito, é um esforço gigantesco, que conta com a energia e entusiasmo de muitas pessoas. A diversidade da programação, as reflexões provocadas, as emoções vividas, tudo nos faz ter orgulho da equipe que comanda os bastidores.
  Mas tem a fila. E a fila do Filo testa a paciência de qualquer um. Enfrentei-a na última quinta-feira. E a vi enorme, desafiando a organização precária em poucos guichês, equipamentos lentos e uma enorme boa vontade de todos - do lado de cá e de lá das cabines de venda. A fila não combina com o Filo. Ela o desmerece, torna tudo um sacrifício. Os ingressos se tornaram troféu conquistado por quem persevera. É para ser assim? Todo ano, o mesmo problema? Não teria sido possível imaginar a grande procura por ingressos?
  Me pergunto se a fila tem outro propósito: selecionar os fortes, aqueles que, de fato, merecem assistir à programação cuidadosamente selecionada. Quantos serão privados da riqueza do Festival porque não tiveram paciência para esperar horas em fila? Por que aquela pessoa à minha frente demorou mais de uma hora para ser atendida? Se a cidade tivesse espetáculos mais regulares, distribuídos ao longo do ano, as pessoas estariam menos ávidas por assistir tudo que podem neste curto espaço de tempo. Por que a ânsia de assistir a quase tudo não é fruto daquela mesma fome cultivada pela ausência das artes na vida das pessoas nesta cidade com tantos talentos?
  E quero sugerir: que a Amen e a UEL-Casa de Cultura pensem na possibilidade de fazer um Filo não concentrado, em doses homeopáticas, fortalecendo-nos com uma programação distribuída ao longo do ano. E se isto significar o oposto do sentido de Festival, que o espírito do Filo seja orientador de atividades culturais regulares, que não passem pelo sentimento de que ir ao teatro seja um ato de perseverança. E, por favor, vamos agilizar essa fila?
TELMA GIMENEZ é professora universitária em Londrina


Pombas, ratos e morcegos
Nelio Roberto dos Reis
  Londrina, periodicamente, escolhe algum animal como alvo de discussão. No princípio foram as pombas. Depois os ratos, transmissores de doenças que estão aqui, principalmente nas galerias de esgoto, em maior número e há mais tempo. Agora, a população se incomoda com os morcegos que saem das frestas dos prédios centrais, ao escurecer, à procura de comida.
  Londrina tem 42 espécies diferentes de morcegos. Destas, dois são piscívoros e vivem no Lago Igapó. Três são vampiros, se alimentam de sangue e moram onde existem cavalos, porcos, vacas e galinhas dos quais cortam a pele, com afiados dentes, soltam um anticoagulante pela saliva e lambem o sangue.
  Na Amazônia, onde as casas têm frestas, podem atacar o homem geralmente no dedo do pé. Não existem morcegos vampiros na Europa. Eles são americanos. O vampiro é nosso. Dezessete são frugívoros, estão aonde têm frutas, dispersam sementes e formam as novas florestas. Duas são polinívoras, como o beija-flor, polinizam plantas tropicais. Por fim, dezoito espécies são insetívoras, atraídas pelos insetos que procuram as luzes das cidades. Como destruímos as matas, agora também moram entre nós.
  É importante que se saiba que cada um destes morcegos, por mais incrível que pareça, come 500 mosquitos por hora (predador mais eficiente do mundo animal) e dentre estes mosquitos estão incluídos os transmissores da dengue e da febre amarela. Por que então nos livrar-mos deles? São muito mais eficientes do que o ‘‘fumac꒒ dos carros da Saúde. Um morcego de 30 gramas pode comer em uma única noite 45 gramas de insetos. Que mal eles podem nos fazer?
  Com todas estas vantagens, cuidados devem ser tomados. Assim, como não é normal encontrar rato voando, também não é normal encontrar morcegos no chão. Todo animal de sangue quente (rato, gato, macaco e cachorro) pode transmitir a raiva assim como os morcegos. Um morcego no chão deve ser descartado assim como faríamos com um rato. Seria prudente tirá-lo do alcance de crianças, gatos e cachorros. Mas acreditem, os morcegos são úteis e necessários. Muito mais perigosos para a nossa saúde são alguns (nem todos) animais racionais, locados no final da Avenida Duque de Caxias. Como exterminá-los?
NELIO ROBERTO DOS REIS é professor de Ecologia na Universidade Estadual de Londrina

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