ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Dom Orlando Brandes 
Jesus se
identifica
com
os famintos
e sofredores
O mistério eucarístico não se restringe ao templo nem ao coração do fiel, mas é para a vida do mundo. Leva a um novo modo de ser e a um novo modo de viver. Cria comunhão, unidade, relações de aliança. Inspira atitudes e opções de vida em favor dos pobres, dos excluídos, dos doentes. Supera divisões, inimizades, ódios e realiza reconciliação, convivência pacífica. Esta forma eucarística de viver caracteriza a Igreja Primitiva onde não havia necessitados entre eles, cativavam a simpatia do povo.
O jeito comunitário e solidário de conviver, é o que chamamos de cultura eucarística sistema eucarístico que muda o sistema econômico consumista egoístico para um estilo solidário de existência. É o pão do céu para a vida do mundo. Vejamos alguns aspectos da cultura eucarística.
1. A cultura eucarística como cultura da vida. Que a Eucaristia é remédio que cura, pão da imortalidade e pão da vida, força que impele a alegria de viver, ensina hospitalidade, leva à generosidade e solicitude para com os outros, não se pode duvidar. Vence a cultura da morte e promove a cultura da vida em todos os seus níveis, inclusive a ecologia.
2. A cultura eucarística como cultura de comunhão. Unidade, participação, inclusão, comunhão são comportamentos e atitudes eucarísticas. Comungamos o Corpo de Cristo para ser o corpo da Igreja e respeitar o corpo humano. Vencer a solidão, a discórdia, o ódio, as divisões e estabelecer unidade e fraternidade, é próprio da cultura da comunhão, resultado de uma espiritualidade de comunhão, fruto da Eucaristia. Daí que o racismo, as divisões, as exclusões, os guetos são pecados contra a Eucaristia.
3. A cultura eucarística como cultura da gratuidade. Eucaristia é ação de graças, louvor, gratidão que no cotidiano se traduz em atitude de gratuidade, altruísmo, serviço, voluntariado. Na cultura da gratificação, do pagamento, do cálculo, a gratuidade fala alto porque é doação de si, generosidade, amor desinteressado. Hoje, aquilo que é de graça, atrai.
4. A cultura eucarística como cultura da solidariedade. A Eucaristia tem muito a ver com a fome e a partilha do pão. Jesus se identifica com os famintos e sofredores. Eles também são sacrários da presença do Senhor. A ordem eucarística é: Dai-lhes vós mesmos de comer (Mc 6,37). Onde há fome a celebração da Eucaristia é incompleta. Antes de celebrar a Eucaristia, Jesus multiplicou os pães e lavou os pés dos discípulos.
5. A cultura eucarística como cultura da beleza. A arte de celebrar, o espaço litúrgico, o canto, os enfeites, a arquitetura das Igrejas, enfim, a beleza, a estética são reflexos da luz, do atraente e do irradiante que existe em Deus, o Sumo Bem. Sem beleza não fazemos a experiência do fascínio, do encanto, da maravilha, que envolve o mistério de Deus, autor e criador de toda beleza. A Eucaristia gera enlevo eucarístico.
6. A cultura eucarística como cultura da ternura. Jesus se inculturou num lugar do globo terrestre, num povo, numa religião, numa família. Apreendeu a preparar refeições, a fabricar mesas, a perceber o valor do fermento, do grão de trigo, do pão. A Eucaristia é o sacramento da ternura de Deus que se faz nosso companheiro de viagem, faz questão de estar conosco e quer entrar em nossa casa para cearmos juntos (Ap 3,20). O tabernáculo é descanso e conforto, consolação e presença amiga. Jesus convida-nos para seu banquete, faz festa para seus convivas, tem compaixão dos famintos, multiplica os pães, prepara o peixe nas brasas e convida para a ceia (Jo 21, 12). Em ambientes de violência, terrorismo, ódio, prisões, campos de concentração, a Eucaristia tem sido a ternura de Deus e a vitória da ternura. Há uma dialética esponsal na Eucaristia, o amor que se doa, o amor de aliança, de ternura.
7. A cultura eucarística como cultura do mistério. Nosso mundo é racional, científico, matemático, produtivo. O mistério rompe com estes horizontes estreitos e faz pensar na transcendência, na ressurreição, no além, na vida após a morte. Sim, o mistério faz pensar. A Eucaristia é mistério da fé, por ser presença de Jesus vivo, memorial do sacrifício da cruz, celebração da páscoa, ação de graças, antecipação da glória futura. Nada disso nos empobrece, pelo contrário, nos abre para dimensões que dignificam a pessoa humana e revelam o amor de Deus.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


