Choque de gerações

Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
  Os personagens Suzane von Richthofen e o pai e a madrasta de Isabella Nardoni têm algo em comum: representam a crise de valores envolvendo pais e filhos. No primeiro caso, a impulsividade dos jovens desencadeou o crime; no segundo, a desgastante relação envolvendo o pai, a ex-esposa e a atual esposa culminou na morte de um inocente. O choque de gerações é comum, mas é inaceitável que se dê de modo trágico. Pais e filhos possuem algumas diferenças, mas no geral, é como se fossem o reflexo um do outro. Isto decorre do fato de que os filhos serão adultos algum dia, e de que seus filhos também serão adultos, assim como seus pais podem voltar a ser ‘‘crianças’’ (devido a alguma doença ou devido ao fato de um adulto redescobrir prazeres que negara há muito tempo). Isso mostra que ser adulto ou criança, ou mesmo pai e filho, é algo que acontece de modo dinâmico, e que faz com que uma parte da personalidade de seus progenitores, e também da de suas crias, possa ser assimilada e compartilhada por cada um. Talvez daí resida a importância de um saudável relacionamento entre pais e filhos: um descobre e aprende com o outro, quase que inexistindo uma hierarquia rígida.
  Os tempos mudam, mas ainda não se conseguiu atingir este saudável estágio de relação harmônica. Antigamente, prevalecia a hierarquia dos pais. Hoje, é comum a hierarquia dos filhos dividindo espaço com a autoridade de seus progenitores. Ceder, mandar, estabelecer ‘‘contratos’’, recuar, são muitas ações que fazem parte do complexo e atual relacionamento entre as gerações. Difícil dizer que possa haver harmonia (descoberta e aprendizagem mútua), visto que o efêmero e a competição acabam influenciando bastante. E neste cenário de conflito de idéias, pode surgir o confronto que, de fato, se concretiza. E, principalmente, de modo trágico. Os personagens mudam, mas o verdadeiro culpado são as condições que contribuem para que persista, indiretamente, este clima de oposição entre as gerações. Falta de limites e supressão das emoções são os pilares deste conflito, sendo que pais e filhos podem ser afetados igualmente por estas duas características. O caso Isabella, assim como outros casos anteriores, têm esta repercussão, pois a sociedade está inserida nas regras deste cenário que dificulta, atualmente, os relacionamentos saudáveis.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina da Universidade Estadual de Londrina


Porecatu arcaico

Manuel Joaquim R. dos santos
  Os funcionários da Usina Central do Paraná mais uma vez enfrentam uma situação deprimente. Estão há dois meses sem receber o legítimo pagamento. Há inclusive situações de fome entre os moradores de algumas fazendas do Grupo Atalla. Os que prestam serviços terceirizados não vêem a cor do dinheiro há cinco meses! Não fosse já em si intolerável o atraso salarial temos que ter presente alguns fatores que conspiram contra a usina de álcool e açúcar. Dois bens que no panorama internacional estão bem cotados. Etanol que se apresenta como combustível alternativo em boa parte dos países ricos. O Brasil produzia até a bem pouco tempo, 19% de todo açúcar do mundo e 37% do etanol mundial. Existe uma demanda projetada para a produção de 39 milhões de toneladas de açúcar (27 milhões para exportação) e de 30 bilhões de litros (seis para exportação). Ou seja, o horizonte de brigadeiro não justifica nem de longe, situação anacrônica e caótica como a de Porecatu. A que ela se deve então? Deve-se a uma postura errada no relacionamento entre empregados e empregadores ao longo dos anos e a uma administração que não obedeceu a critérios modernos - como seja a participação dos funcionários nas decisões e lucros da mesma e a capitalização da empresa com investimentos que contemplassem a dimensão social. Ao contrário temos um relacionamento incestuoso doentio em que a Usina aparece como Deus e Demônio simultaneamente!
  Os funcionários ainda moram em casas deprimentes nas fazendas decadentes, algumas sem luz elétrica. O comércio local está entubado: se a Usina pára, o comércio sufoca. O verde da cana que rodeia a cidade não é infelizmente para esta gente, sinal de esperança. A monocultura e a concentração de terra nas mãos de uma família são indícios do imbróglio que o poder público e a sociedade vão ter de ajudar a resolver. A questão do atraso salarial momentâneo ultrapassa em todas as dimensões a região. Uma questão crônica que envolve dívidas não pagas, fundo de garantia não depositado e omissão do poder público! Portanto, a causa não é só dos trabalhadores que passam necessidades é de todos que lêem este artigo. Só assim esta pobre gente conseguirá dias melhores para si e futuras gerações.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre em Porecatu

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