ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Adreana Dulcina Platt 
Está na hora de não nos comportarmos com mendicância
Este texto é um manifesto de insatisfação diante dos perigos iminentes às conquistas históricas dos trabalhadores docentes das universidades estaduais do Paraná, pelo levante ''à traição'' de um governo que arrota ventos sociais, mas que tem materializado uma gestão truculenta (''coronelismo''?). Esta tese é acolchoada a partir da adesão das classes trabalhadoras - pelo menos aos segmentos desmobilizados (vergonhosamente como nós...) - a um programa de governabilidade, que se realiza na perspectiva à conservação do ''status quo'' para além de duas gestões... (projeto de governabilidade ''estendida'').
Houve um grave equívoco, grassamente denunciado, nas reuniões de classe (sindicais), quanto à leitura de muitos de que haveria a necessária ''melhoria'' salarial por uma nova composição das tabelas e porcentagens propostas no plano de cargos e salários, cumulado com as discussões referentes aos reajustes das perdas salariais. Ora, para começar, este é um pensamento ''preguiçoso'', que denuncia a desmobilização de classe, uma vez que propõe ao próprio Estado a incidência de reajustes por imposição legal; além de primário, perdão dizer, uma vez que a história também denuncia o padrão de gerações de governos que sob os auspícios do capital gerem a ''res publica'' no âmbito da inconstitucionalidade. Desta forma, o que afligiria o ''príncipe'' a agir em conformidade com o que é legítimo? (além do que, se entrássemos no campo da moralidade, da ética, não haveria de ser pela imposição daquilo que está expresso que urgiria por cumprimento, pois seria próprio da natureza do acordo). Para recrudescer essa tese equivocada, ainda há o desvio de finalidade que se embute nas lacunas da ''negociação''.
As perdas salariais não são elementos de negócio, elas são objetivas! Não se espanta a fome de quatro dias com conversa! Não há o que discutir se ''existem ou não'', uma vez que órgãos responsáveis, atestados no próprio corpo estatal, as denunciam. Se há algo a negociar no máximo, do máximo (e seguidamente após consulta à base interessada) seria a proposta da forma de recebimento da dívida - e isso ''talvez''... Com a cortina de fumaça instalada e pela forma truncada, em levar não somente a insatisfação das perdas, mas agora a readequação da carreira, fomos enredados num mar de informações que urgem por enorme vigilância, mas que agora se encontram perdidas pelo número de frentes que toma - e estamos descobertos, franqueados ao ataque.
O ''pacote oculto'' - ou a ''caixinha de surpresa'' (de pandora?) que a gestão Requião irá propor, pode a princípio parecer elementarmente satisfatória quando por um ou dois anos ela adequa nossa pequena vida de todo dia às circunstâncias da existência objetiva. O problema grave está nas minúcias desta lei em que não se reconhece o impacto. O problema não está na implantação de reajustes impositivos, mas no impacto de perdas que determinadas cláusulas deste ''novo estatuto'' expressam, de tal sorte que poderá apresentar ilusoriamente valores monetários altos, porém, com perda acumulada de capital para os trabalhadores. Erro grasso e primário, de trabalhadores que não se reconhecem além do tempo e espaço unidimensional (para o agora).
O projeto de governabilidade está se instalando e sem a reação dos ''operários das universidades''. A aquiescência a este programa de gestão, que banaliza mais de uma década de perda salarial, é também aceitar o embuste de um governo que nos trata como funcionários da gestão deste governo estadual e não como funcionários públicos do Estado do Paraná. Representar apenas as perdas de sua gestão não é nada de significativo, uma vez que é obrigado à reparação. Minha preocupação se estende à incapacidade de alavancar conquistas, pois, mais grave e além, está a falta de manutenção daquilo que homens e mulheres, significativamente ao campo educacional e universitário lutaram para que, por reflexo, nossas gerações estivessem por elas amparadas - luta, aliás, do coletivo destes profissionais, em todo o âmbito brasileiro.
Não conseguimos sequer, minimamente, mantê-los quando: 1) há ''silêncio'' sobre uma proposta que no ''golpe'' de seu silêncio pretende implantar um plano para trabalhadores, e pasmem..., sem os trabalhadores; 2) quando ''esfumaça'' as perdas salariais em outro foco de atenção, como a ''adequação'' a carreira docente; 3) quando implanta sua governabilidade dirigida ao segmento universitário a partir da reformulação da carreira de trabalhadores; e 4) quando nos confundem como ''operários de gestão'', desconsiderando que somos ''funcionários do Estado do Paraná'' e, nisto, o ''príncipe'' se acredita muito ''justo'' por reparar um ano de estrangulamento. Está na hora de apresentarmos a face de nosso caráter inegociável e não nos comportarmos com mendicância.
ADREANA DULCINA PLATT é doutora pela Unicamp e professora da Universidade Estadual de Londrina


