ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de maio de 2008
Francisca Vergínio Soares 
Acompanhando o caso Isabella e o seu quase desfecho, perguntamos: o que é segurança? Estamos todos os dias arguindo o poder público sobre nosso direito de segurança no espaço público. Mas, e no espaço privado, estamos proporcionando segurança aos nossos filhos ou àqueles cuja responsabilidade compete a nós? Como estamos lidando com a violência que tem assolado o País, o mundo e atingido nosso cotidiano? O que estamos fazendo para evitar que a violência caia num lugar comum ou que se banalize no nosso dia-a-dia?
Sustenta o psicanalista Jurandir Freire, que a violência tem se tornado um item obrigatório na visão de mundo que nos é transmitida, criando a convicção tácita de que o crime e a brutalidade são inevitáveis. O problema, então, é entender como chegamos a esse ponto onde as notícias pululam diariamente mostrando os requintes cruéis praticados contra pessoas. E quando se trata de crimes contra crianças daí, então, caímos no vazio tentando compreender, se é que isso é possível, o que leva pessoas aparentemente normais a agirem assim. Notem então, que a criança, não só a brasileira, integra o que poderíamos chamar de população de alto risco na medida em que são assassinadas, violadas cotidianamente no seu direito à vida, à saúde e ao bem-estar físico e psicológico.
Talvez, devêssemos nos questionar como e por que estamos nos familiarizando com a violência, tornando-a nosso cotidiano, usando-a como instrumento de relacionamento. Sua disseminação na sociedade contemporânea está ligada diretamente a uma cultura própria, que estimula e ratifica atos violentos como algo ''natural''. Essa cultura é denominada por Freire Costa como sendo a cultura da crueldade onde a vida é banalizada porque destitui a vítima de seu estatuto de humanidade. Ou seja, o agressor não se satisfaz apenas em humilhar, maltratar e fazer sofrer. O desejo vai além disso e o desfecho é o assassinato por motivos torpes e banais. Não por acaso, a palavra crueldade vem de cruor, de onde deriva crudelis (cruel) assim como crudus (cru, não digerido, indigesto) designa a carne escorchada e ensanguentada, quer dizer, a coisa mesma privada de seus ornamentos ou acompanhamentos ordinários, como a pele, reduzida ao sangrento e ao indigesto.
O crime cometido contra a pequena Isabella revela essa crueldade somada ao sadismo; outro é o que ocorreu com a menina de 12 anos de Goiás que por dois anos foi torturada, espancada e submetida às piores situações de violência pela mulher que a adotou. O caso foi descoberto em meados de março por denúncia de um vizinho.
Eis o caráter cruel desse modo de ver o outro, porque parece haver um desejo puro em promover o mal, então matá-lo não fará a menor diferença posto que os valores disseminados por essa cultura da crueldade redimem e reforçam a banalidade do mal. Notem então que a violência da nossa época é permeada por valores perversos como a crueldade, o sadismo, a indiferença, o individualismo exacerbado, a barbárie e o cinismo.
De perfil cruel e sádico foram os crimes cometidos contra Isabella e a menina de Goiás. Seus algozes estavam imbuídos daqueles valores perversos e ao praticarem tamanha barbárie foram indiferentes, tendo sido as vítimas violentadas ou exterminadas como um objeto descartável. Quando nos convertemos a este ponto de vista, não mais olhamos nosso semelhante como um sujeito moral; como alguém que pode sofrer como nós; como alguém sensível à crueldade. Os preconceitos étnico, religioso, social ou sexual são exemplos de atos cruéis que podem ser encontrados, mesmo naqueles que não estejam mergulhados na violência urbana. (COSTA, 1993:5).
Crimes como estes mexem com o nosso imaginário porque vêm a público, mas e os milhares de outros casos que permanecem no anonimato? Casos de brutalidade contra as crianças, segundo estudos, começam em casa, e pior, são cometidos pelos pais ou responsáveis. O que pode explicar estes comportamentos sádicos? Talvez possamos inferir que na sociedade da informação (Castells) muitos fatores contribuam, todavia, a exposição constante e excedente do indivíduo a violências diversas, o leva a internalizar um sentimento de impotência, o que o impede de questionar o sentido das coisas e da vida porque perde a noção entre o bem e o mal.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é cientista social e coordenadora e pesquisadora do Observatório Social Londrinense de Estudos da Violência, Conflito e Segurança Pública (www.obsocil.com.br)


