Racismo científico e intolerância

José Miguel Arias Neto
  Quando se pensa que o ‘‘Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas’’, um dos primeiros trabalhos sobre eugenia e racismo publicados no século XIX, de autoria de Joseph Arthur de Gobineau seria, atualmente, apenas um objeto de estudo do pensamento humano, o coordenador de um dos mais tradicionais cursos de medicina do país, (o da Bahia, criado em 1808), atribui ao ‘‘QI baixo dos alunos’’ o baixo rendimento do Enade. Há vários aspectos reveladores na declaração. Primeiro o fato de vir de alguém cuja atividade fundamenta-se nas chamadas ‘‘ciências físicas e naturais’’, nas quais muitos pesquisadores têm uma fé cega e positivista devido à ficção de ‘‘exatidão’’ do conhecimento que propagam. Por outro lado, esta declaração também revela um aspecto não menos doloroso da sociedade brasileira: uma afirmação desta só é feita quando e onde é verossímil. A opinião do professor não é só dele, mas de determinados setores da sociedade que expressam o mesmo conteúdo com outras palavras, e vão, assim, formando uma ‘‘opinião pública’’. Há muitas pessoas dispostas a ouvir e acreditar no que o ‘‘doutor’’ falou. Este é o aspecto mais triste do caso.
  O racismo, o preconceito e a discriminação receber, por um lado, a chancela das ciências porque encontra em seu coração abrigo e lugar. Esta posição encontra legitimidade uma vez que parcela da sociedade não reconhece o mais liberal dos princípios enunciados no século XIX, pela segunda Declaração de Direitos (a francesa de 1789) cujo artigo primeiro diz: ‘‘Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos’’. A primeira enunciação deste princípio foi feita no início da Revolução Americana: ‘‘Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade’’ (Declaração de Independência de 1776). Elas demonstram que o ‘‘doutor’’ e muitos outras pessoas em nossa sociedade, não receberam sequer notícias das idéias iluministas e liberais. Quando as ciências deixam de ser investigação e se tornam religião passam a ser co-responsáveis pela fé cega que gera genocídios, inquisições, totalitarismos.
JOSÉ MIGUEL ARIAS NETO é professor de História Moderna e Contemporânea do departamento de História da Universidade Estadual de Londrina


Orar pelas vítimas e pelos agressores

Walmor Macarini
  É triste ver-se famílias enlutadas pela morte violenta de um filho recorrerem a apelos como o clamor enraivecido por justiça ou um pedido de indenização. A dor já é um fardo bastante pesado, e tudo o que se adicionar a ele em forma de ira resultará em aumento da densidade do infortúnio, e um proveito financeiro por conta disso pode redundar numa pesada dívida, que em dado momento terá de ser saldada por quem a contraiu. Aqueles que partem do nosso convívio, vítimas de morte violenta, encontram mais rapidamente as condições de sarar essa ferida, a menos que partam envolvidos por intenso ódio. Os que padecem muito são os que ficam, e quando chegar o momento também os algozes irão sofrer, tangidos pela inquietude e pelo remorso. Não há que macular os corações com o sentimento de punição, porque está aí oculto um desejo de vingança.
  A constante revivência de um fato triste traz a vítima para o palco da tragédia e não a deixa subir. Criar martírio para aquele que se vai é uma forma de alimentar o noticiário e isso não permite que a vítima se eleve. Se as pessoas soubessem, não torturariam com mais esse tormento um filho que partiu. Os muitos relatos conhecidos são de que as almas de pessoas que morreram (por assassinato ou outra forma violenta) costumam perdoar com rapidez quem por alguma forma lhes tirou o envoltório físico, e chegam a pedir aos familiares que cessem seu ódio. Para que elas possam subir e administrar sua nova realidade.
  O caso da menina lançada do alto do edifício semeou tanta ira paralela que a atmosfera, em todo o País, ainda está muito carregada. São as autoridades que devem cuidar de cada caso, e que os veículos de comunicação não se convertam em incendiários e em juízes. Em Londrina, vizinhos de outro caso de morte de uma criança começaram a fazer justiça pelas próprias mãos. Uma mórbida corrente vibratória se alastra e ganha formas as mais sinistras, poluindo de nuvens sombrias o ambiente já denso. O fato motivador e as reações periféricas têm a mesma intensidade. Estas são marcas de enfermidades sociais, tão difíceis de curar quanto a contenção daqueles propensos a cometer um crime. Os mansos, bafejados pela graça de um mais elevado grau de espiritualidade, precisam orar muito, por todos. Pelas vítimas, pelos manifestantes revoltados e pelos agressores.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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