ESPAÇO ABERTO
Desbravando a Colônia Internacional
Humberto Yamaki
Uma exposição que resgata os mapas da antiga ''Colônia Internacional'' será inaugurada nos próximos dias no Museu Histórico de Londrina. Colônia Internacional ou Kokusai Shokuminchi era o nome pelo qual ficou conhecido, entre os imigrantes japoneses, o empreendimento da Companhia de Terras Norte do Paraná - CTNP. A denominação havia sido sugerida por Hikoma Udihara, gerente-geral de vendas da seção japonesa da Companhia, no início da colonização nos anos 30. Assim como a indicação de uma imaginária estação ferroviária chamada Yamato (grande harmonia ou povo japonês) no mapa publicado por Udihara, e a definição de uma área a leste do núcleo urbano Londrina chamada Nipônica, faziam parte de estratégias para a atração de imigrantes. De fato, os imigrantes japoneses foram os primeiros compradores de lotes rurais no empreendimento.
Incentivados pela própria Companhia e seguindo uma tradição, os imigrantes organizavam-se em colônias ou shokuminchi, visando à ajuda mútua e a educação dos filhos. Uma colônia era formada basicamente por algumas dezenas de lotes rurais contíguos, delimitados por ribeirões e interligados por uma estrada, tendo a escola e o kaikan - sede de associação no seu centro geográfico. A colônia pioneira chamada Seção Número Um ou Dai-Ikku Shokuminchi teve início em outubro de 1931, na área entre os ribeirões Limoeiro e Cambé, nos arredores de Londrina.
A exposição reúne alguns dos raros mapas ilustrativos da época, além de painéis com a sobreposição de mapas antigos com fotos aéreas recentes. Permitem ao visitante visualizar a localização inicial das colônias e confrontar com o que existe hoje no local. Por exemplo, pode-se ''descobrir'' que nos limites da colônia pioneira está o Aeroporto, o Parque Arthur Thomas, a Avenida Dez de Dezembro, a Acel e a Praça Nishinomiya entre outros. Afirma-se que a Dai-Ikku Shokuminchi ainda guarda alguns silêncios.
Cafezal, Abóbora, Elefante, Alegre, Boa Sorte, Shin-Ai (Fé e Amor), Hinode (Sol Nascente), Fuji, Yamato. Era grande a variedade de nomes dados às colônias. Resultavam da adoção de nomes de ribeirões e lugares, e mais ainda, de palavras que refletissem as esperanças e lembranças.
Entre as décadas de 30 e 40, cerca de meia centena de colônias foram sendo fundadas entre Londrina e Maringá. Definiram uma densa paisagem cultural marcada pelos modos de uso da terra, bem como pela presença de edificações de traços nipônicos com forte caráter.
A arquitetura em madeira nas colônias, obra de mestres carpinteiros japoneses evidencia nos detalhes de telhado e ornamentos, a aplicação de derivações de técnicas construtivas milenares. Além de moradias e anexos, devem ser destacadas as magníficas e imponentes construções de escolas e kaikans, verdadeiros ''castelos de madeira'', edificações-símbolo das comunidades.
Curiosamente, os imigrantes conhecidos por manterem as tradições, não herdaram o sentimento de valorização, preservação e reabilitação de paisagens e construções tradicionais comumente observadas no Japão. Não só a paisagem se mimetiza, mas também a técnica construtiva se esvai. As exemplares construções em madeira vêm desaparecendo rápida e silenciosamente, sem deixar vestígios. Vêm sendo demolidas muitas vezes em troca de algumas moedas.
Apesar de tudo, as colônias estão fortemente gravadas na memória dos pioneiros e nas rememorações daqueles que ali passaram parte de suas infâncias, tendo como local de diversão os inúmeros ribeirões e córregos que cortam a região.
Marcas do processo de ocupação e da forte presença dos imigrantes japoneses no Norte do Paraná, as paisagens moldadas pelos saberes pioneiros constituem pouco valorizado, porém importante patrimônio cultural. Aguardam olhares sensíveis à sua redescoberta e preservação, neste momento em que se comemora o centenário da imigração japonesa ao Brasil.
Takkon (espírito desbravador). A Exposição Atlas da Colônia Internacional é, sobretudo, uma homenagem aos pioneiros que souberam dar significado ao chão de terra vermelha.
HUMBERTO YAMAKI é professor na Universidade Estadual de Londrina
e curador da Exposição ''Atlas da ''Colônia Internacional''





