O século perdido?



Cleide Vitor Mussini Batista e Raquel Rodrigues Franco

Causa-nos indignação e repulsa a barbárie a que estão sendo submetidas as crianças. Há um certo tempo, somente as que eram marginalizadas ficavam expostas ao crime, à exclusão e à invisibilidade. Mas, o que vivemos e vemos hoje é que a violência, de profunda raiz histórica e social, chega a todas as camadas sociais. Não é mais o ''menor'' (de família pobre, abandonado, prostituído), mas também a criança-família, a criança-abastada, a criança-escola quem sofre as influências da violência.

Embora as pessoas estejam sensibilizadas, pouco se faz em termos de medidas (educação familiar, escolar e cidadã) adequadas para exigir do Poder Público ações concretas e preventivas que evitam o posterior investimento na coerção e na punição. Quando uma sociedade deixa matar as crianças é porque começou seu suicídio como sociedade. Quando não as ama é porque deixou de se reconhecer como humanidade. Afinal, a criança é o que fui em mim e em meus filhos, enquanto eu e humanidade. Ela como princípio é promessa de tudo. É minha obra livre de mim. Se não vejo na criança uma criança, é porque alguém a violentou antes e o que vejo é o que sobrou de tudo o que lhe foi tirado. Mas essa que vejo na rua sem pai, sem mãe, sem casa, cama e comida; essa que vive a solidão das noites sem gente por perto, é um grito, é um espanto. Diante dela, o mundo deveria parar para começar um novo encontro, porque a criança é o princípio sem fim e o seu fim é o fim de todos nós. Onde erramos? Estamos olhando para nossas crianças não como quem olha para uma vida que é um fim em si mesma, que tem direito ao hoje pelo hoje. É difícil?!

As respostas para tantas questões sejam elas pessoais, sociais e/ou profissionais tentam dar conta de ''restaurar'' a saúde física, psicológica, moral e ética de pessoas e da sociedade! Todos nós devemos ser chamados à responsabilidade e demonstrar a repulsa social contra a violência perpetrada contra as crianças. Se não sabemos respeitar a criança, então a nossa resposta ou a educação que lhe ofertamos sempre nos surpreenderá! Talvez uma surpresa em nada desejada. E, nesse caso, devemos arcar com o peso de nossas escolhas pessoais e sociais, de nosso comprometimento e dos nossos erros. Será um século perdido?

CLEIDE VITOR MUSSINI BATISTA é doutora em Educação no departamento de Educação da UEL e assessora de Educação do Município de Londrina e RAQUEL RODRIGUES FRANCO é mestre em Educação e docente da Rede Municipal de Ensino de Londrina



Síndrome da madrasta

Julieta Arsênio

  Síndrome é um conjunto de sintomas característicos de uma doença. Madrasta é a mulher casada em relação aos filhos que seu marido teve anteriormente de outra esposa. No sentido figurativo é mãe pouco carinhosa ou que maltrata os filhos. Essa interrelação entre madrasta e os filhos de seu atual companheiro muitas vezes se faz de forma conflitiva prejudicando a formação dessas crianças. Se para as gerações passadas tal conflito ocorria nas histórias infantis, como em ‘‘A Branca de Neve’’, hoje essas histórias têm se apresentado com tamanha concretitude que gera manifestações comportamentais inadequadas.
  De um lado, temos a insegurança da criança no convívio parental, por outro temos a imaturidade emocional de uma pessoa adulta. Isso provoca conflitos nessa interação congestionando o bem-estar de todos. Estamos vivenciando o caso Isabella. O convívio diário dos noticiários tem gerado uma comoção coletiva, assim como os julgamentos que esse coletivo apresenta. Em conversas com várias pessoas percebo o quanto elas ainda consideram a madrasta como pessoa má. Algumas mães separadas temem essa síndrome da madrasta. A proteção materna torna-se tão neurotizante que acaba sufocando a criança e impedindo seu crescimento sadio. Talvez, os conceitos de bom e ruim das histórias infantis, antes adormecidos em nossa mente, despertem essa revolta com tamanha crueldade.
  Sabe-se que existem madrastas que são verdadeiras mães, contrapondo-se a essas outras ‘‘madrastas’’ doentes e que adoecem as crianças inseridas no seu convívio. A madrasta de Isabella é uma delas e o pai é o seu cúmplice. Tais fatos poderiam deixar de existir se a separação fosse tratada como um ganho para o casal e não não como um processo onde há um ganhador ou um perdedor. A alternativa para a resolução desse problema só poderá se dar através do processo da mediação, privilegiando às partes o encontro consensual para a solução de seus conflitos.
JULIETA ARSÊNIO é psicóloga em Londrina

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