Vamos mudar de assunto?


Altair Aparecido Galvão
Não é novidade a forma sensacionalista como a imprensa cuida de notícias referentes a crimes de morte, especialmente aqueles que envolvem crianças e adolescentes das classes média e alta. Foi assim no caso dos bárbaros homicídios dos adolescentes Liana e Felipe, no final de 2003, pelo também adolescente conhecido por Champinha, ou quando o menino João Hélio, de 6 anos morreu, ao ser arrastado por vários quarteirões preso ao cinto de segurança, por bandidos que roubaram o carro onde estava em 2005. Atualmente, o caso da menina Isabella Oliveira Nardoni, de 5 anos, é um desses que provoca emoção e revolta, por se tratar de uma criança indefesa que morreu tragicamente ao ser atirada da janela do apartamento onde morava. A partir da história contada pelo pai e pela madrasta da menina à polícia, as suspeitas se voltaram justamente contra o casal.

O que mais choca nessas tragédias não são simplesmente as circunstâncias nas quais as mortes ocorreram, mas a transferência que a imprensa procura impingir ao leitor-telespectador-consumidor, colocando seus próprios filhos na situação das vítimas de fato. Com o objetivo principal de cada vez mais vender jornais e espaços publicitários nas emissoras de rádio e televisão, esses veículos se utilizam de apelos midiáticos da pior espécie, deixando de lado os princípios mais básicos da ética jornalística. A primeira página do Diário de São Paulo de 1º de abril ou o choro teatral do apresentador José Luis Datena (TV Bandeirantes) chamando os pais da menina Isabella de assassinos são exemplos de crimes contra o bom jornalismo.

Estudos linguísticos afirmam que não existe discurso neutro, pois sempre há uma carga semântica direcionada intencionalmente para um determinado público. O ideal seria a mídia apresentar a notícia tal qual ela é. Isso não acontece, também, em razão do fascínio que representa para a maioria das pessoas as notícias carregadas de drama, de paixão e de sensacionalismo. Para finalizar, uma pergunta: quantas crianças e adolescentes pobres não foram vítimas de violência desde a tragédia da pequena Isabella, mas que passaram despercebidas por não vender jornais nem dar audiência em programas de rádio e televisão?

ALTAIR APARECIDO GALVÃO é matemático, cientista social, mestre em Geografia e professor da Faculdade Alvorada em Maringá





Orar pela paz mas sem ressentimentos



Walmor Macarini
A comoção popular diante do caso da menina Isabella é um sentimento salutar e capaz de limpar a atmosfera, se revestido de pureza, mas a poderosa força contrária que também está se verificando, com indisfarçável desejo de vingança por parte da maioria das pessoas, tem um tremendo poder negativo e causa grande mal, podendo ensejar a repetição de casos igualmente violentos. São vibrações ruins, que podem retornar contra elas mesmas e com a idêntica intensidade daquilo que as revolta, ou se manifestar por outros fenômenos, como tempestades, terremotos, atingindo um maior número de pessoas. Foi Einstein quem disse que as mentes de toda a humanidade, unidas, fariam explodir o sol. Uma alegoria para mostrar o poder do sentimento coletivo.

O show pela paz realizado em São Paulo, com mais de 1 milhão de pessoas presentes, entre elas destacadas autoridades e artistas, serve (por força das preces que brotam da alma de cada um) para aplacar os males, mas em face do caso da menina muitos estavam ali impregnados de revolta. Ou não teria comparecido tanta gente. Nem seria preciso auscultar a mente de cada um para saber que guardava o sentimento de indignação. A maioria da população imagina, com isso, estar fazendo um bem e manifestando solidariedade. Estamos nos referindo não ao ato de fé mas aos que clamam tanto por duras punições aos algozes de toda a natureza, sem perceber que por trás disso está escondido um mórbido desejo de revide, o que os torna iguais àqueles que combatem. Essa corrente vibratória polui o ambiente e, no presente caso, causa intranquilidade até ao espírito da criança vítima da atrocidade. Não se deve culpar ninguém por tal comportamento e sim orar também por essas pessoas, para que expandam seu coração e desarmem seu raciocínio analítico e sedento de punição.

Orar com revolta é uma contradição e não elimina a impulsão daqueles propensos à violência. Quem tem a compreensão das coisas que acontecem, e sabe que elas são possíveis entre os humanos, prostra-se em oração no reduto dos seus lares ou em qualquer outro lugar, ou assume outras posturas, mas sem ira no coração. No show, destinado a semear luz, havia também uma nebulosa densidade enchendo o espaço, por causa das mentes indignadas, mesmo que mudas. Então, sentimentos puros são tangidos por emanações sombrias dos corações de muitos. E em estado de revolta o amor fica distante.

WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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