ESPAÇO ABERTO
Homeopatia e duendes
Juliano PlastinaA homeopatia é uma modalidade de tratamento criada pelo alemão Samuel Hahnemann, por volta de 1790, e consiste em fornecer doses bastante diluídas de substâncias que produzem os mesmos sintomas da doença que se quer tratar, em pacientes saudáveis. Os homeopatas postulam que diluições sucessivas dos compostos terapêuticos ''despertariam'' suas propriedades curativas - processo chamado de dinamização. Alguns ''medicamentos'' são diluídos tão exaustivamente que o composto final apresenta apenas algumas moléculas da substância original, ou seja, constitui-se basicamente de água pura.
É importante frisar que este método não encontra nenhum respaldo científico. Não existe nenhuma evidência em química, física, biologia ou mesmo em física quântica, de que a água adquira ''memória'' de qualquer substância nela diluída, como afirmam os homeopatas. Acreditar nisso é o mesmo que aceitar que as doenças possam ser curadas por mágica, como fazem curandeiros e pais-de-santo. Todos os estudos que utilizaram o método científico para estudar a homeopatia chegaram à mesma conclusão: o medicamento homeopático não é melhor que o placebo (no caso, um comprimido sem nenhum princípio ativo).
Por este motivo é que se explica o sucesso da homeopatia no tratamento de determinadas doenças. Algumas pessoas podem curar-se apenas pelo fato de receberem atenção e estarem sendo tratadas, mesmo que seja com um ''comprimido de farinha'' - o tão conhecido efeito placebo. Este efeito é observado até mesmo em animais, plantas e bebês, o que coloca por terra também o uso da homeopatia na medicina veterinária.
Também sabemos que muitas doenças têm um curso previsível e resolução espontânea (por exemplo, gripes e resfriados). Alguém que tome um composto homeopático poderá ficar curado e atribuir sua melhora a tal medicamento. Porém, o paciente ficaria curado mesmo que não tomasse nada. Muitos podem argumentar a favor da homeopatia por esta ser reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina. Contudo, esta é apenas mais uma atitude equivocada dentro deste órgão. Na Argentina e nos Estados Unidos, por exemplo, a homeopatia não é reconhecida dentro da ciência médica. Portanto, não existem argumentos lógicos ou racionais para utilizar a homeopatia no tratamento de qualquer doença, seja impotência sexual ou pneumonia. A não ser que o paciente acredite em duendes.
JULIANO PLASTINA é médico urologista em Maringá e membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia
A guerra no trânsito
Ildo Perondi
Vivi dois fatos tristes nos últimos dias. Fui ao velório de um jovem que morreu em conseqüência de um acidente com motocicleta. O pai chorava e clamava: Por que isso teve que acontecer com meu filho?. Dias depois, fui com uma mãe visitar o filho na UTI do hospital, onde há uma ala somente para os acidentados do trânsito. Mais uma vez senti a dor desta mãe, e de outras que lá estavam, indagando por que essas tragédias tinham que acontecer justamente com seus filhos. O clamor dos pais têm sentido, porém não é que estes acidentes sejam marcados por um destino cruel, premeditado para tirar vidas de jovens inocentes.
O fato é que vivemos uma guerra nas rodovias e ruas das cidades. No Brasil, estão morrendo mais pessoas por causa dos acidentes de trânsito do que na guerra no Iraque. Morrem muitos jovens, cujas vidas são ceifadas antes do tempo. A maioria morre ou vai para os hospitais devido à imprudência ao dirigir, ao abuso da velocidade, pelo desrespeito às leis de trânsito ou por culpa de motoristas que dirigem embriagados colocando suas vidas e as dos outros em perigo. Muitos motoristas transformaram seus veículos em instrumentos de batalha. Esta é também uma guerra estúpida, como são todas as guerras.
Recentemente a FOLHA noticiou que o Paraná ganha em torno de mil novos veículos a cada dia. Se por um lado isso é uma boa notícia, pois mostra que há melhoras no poder aquisitivo das pessoas, de outro lado é uma notícia preocupante. Significa também que o trânsito deve ficar ainda mais concentrado. E a mesma FOLHA noticiou que no mês de março o número de acidentes cresceu 9,6% nas ruas de Londrina. É certo que deve haver uma maior fiscalização e, sobretudo, uma dura punição aos motoristas irresponsáveis. Mas a paz no trânsito não virá enquanto não houver uma conscientização de cada motorista para que o automóvel seja usado com cuidado, com respeito às demais pessoas. Enquanto continuar esta guerra no trânsito, como se os outros que também estão conosco nas estradas fossem nossos inimigos, continuaremos ouvindo o clamor de pais e mães por seus filhos nas UTIs dos hospitais ou, pior ainda, pais enterrando seus filhos antes do tempo.
ILDO PERONDI é frei capuchinho e professor da PUC-PR, campus Londrina





