ESPAÇO ABERTO
O Observatório da Água de Londrina
Valmir de França
Um simples desjejum matinal (uma xícara de café, pão com manteiga, um copo de leite e uma maçã) chega a consumir 800 litros de água virtual (a.v.). Na dieta com o uso de carne bovina, uma pessoa consome diariamente perto de 4.000 litros de a.v., ao passo que uma dieta vegetariana, mais saudável, reduz este consumo para 1.500 litros diários.
O termo água virtual foi conceituado por Tony Allan, em 1993, como a quantidade de água gasta para produzir um bem, produto ou serviço. A água virtual está embutida no produto, não apenas no sentido visível, físico, tátil, mas também no sentido virtual, considerando a quantidade de água necessária aos processos produtivos. Este parâmetro tem ocupado as planilhas dos técnicos, dos gestores e dos cientistas, como indicador estratégico para a política de Gestão dos Recursos Hídricos.
Quando o Brasil exporta 18 milhões de toneladas de soja para outro país durante um ano, por este corredor ingressam 45 milhões de metros cúbicos de a.v. no país importador. Seguindo o mesmo raciocínio, cada vez que exportamos 1,3 milhão de toneladas de carne bovina, livre da febre Aftosa, por esse caminho exportamos também 19,5 bilhões de metros cúbicos de a.v..
No setor primário, o cálculo da água virtual é determinado pela relação entre a quantidade total de água empregada no cultivo ou na criação, e a produção obtida em metros cúbicos por tonelada. Assim, para chegar 1kg de carne bovina à nossa mesa, foram consumidos de 13.500 a 20.700 litros de a.v.; quando se coloca 1kg de arroz na panela, além da água necessária para o seu cozimento, foram necessários 3.600 litros de a.v. para a sua produção; 1kg de trigo adquirido no supermarcado, consumiu de 1.150 a 2.000 litros de a.v.; e o quilo de tomate para completar a salada, consumiu apenas 105 litros de a.v.. Estes parâmetros são essenciais para a projeção de futuros cenários sobre a demanda de água tendo em vista a Segurança Alimentar.
Um Plano de Gestão dos Recursos Hídricos deve considerar os parâmetros referentes às demandas de água virtual acrescidas das demandas diárias por habitante, por dia (no Paraná o consumo médio diário é de 126,28 litros de água por pessoa). Também, o Plano deve considerar os procedimentos técnicos para a recuperação, manutenção e monitoramento da qualidade da água, nos seus aspectos como manancial e como um ecossistema aquático. Para dar este suporte técnico no contexto sócio-ambiental, o Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina (Ceal) teve a iniciativa de implementar o núcleo do Observatório da Água de Londrina e região.
O núcleo do Observatório da Água está sendo estruturado por meio do Projeto de Monitoramento da Qualidade da Água dos Rios de Londrina, liderado pelo Ceal, tendo como parceiros, o Conselho Municipal do Meio Ambiente de Londrina, O Instituto Ambiental do Paraná/Sema-PR, a Promotoria Especial do Meio Ambiente da Comarca de Londrina, a UEL, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Londrina e a empresa TI - Solution.
A finalidade do Observatório da Água é centralizar, estruturar e valorizar as informações sobre os usos da água, na escala de bacia hidrográfica, em nível regional. A sua concepção poderá responder às questões inerentes aos gestores dos recursos hídricos, delineando ferramentas úteis para o planejamento, gestão e avaliação das políticas do uso da água, neste caso, nos domínios territoriais de Londrina e região.
A operacionalidade do Observatório da Água passa por três funções essenciais: I. Gestão dos Dados - coleta e análise dos dados de diferentes atores, incluindo a valorização dos dados esparsos. Organização de um banco de dados sobre os diferentes usos da água, sobre sua a qualidade, sobre os diferentes métodos de gestão, bem como a sua regulamentação; II. Informação e Comunicação -produção e divulgação das informações nas diversas escalas espaciais, para a formação da conscientização sócio-ambiental, relacionada com o uso sustentável dos recursos hídricos; III. Apoio à Decisão - construção das sínteses temáticas resultantes das análises e orientações das pesquisas, para as projeções de cenários prospectivos. As sínteses temáticas reunirão o diagnóstico dos recursos hídricos e, os prognósticos para as futuras demandas dos usuários das bacias hidrográficas.
Assim, materializa-se mais um espaço democrático, criado para acompanhar as ações que serão desenvolvidas na interface entre a sociedade civil organizada, o poder público e a iniciativa privada, para a gestão sustentável dos recursos hídricos de Londrina e região.
VALMIR DE FRANÇA é doutor em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais e integrante da Câmara Técnica dos Recursos Hídricos do Ceal
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