ESPAÇO ABERTO
A guerra e Ghandi
Nélio Roberto dos Reis
Perdido entre os próprios erros, o homem tenta conquistar a paz pela guerra. A guerra é a aceitação atroz de algo inevitável que sempre existiu na vida da humanidade. É uma qualidade interior e exterior do próprio homem. Está integrada a uma estrutura de poder que estabelece o comportamento coletivo. O Homem procura mais riquezas ou mais poder do que precisa e, para mantê-los, provoca a guerra. Muitas vezes o Estado se comporta de maneira tão forte que retira os direitos de cada cidadão. Para manter uma filosofia aplica a força, a morte e a guerra. Países e religiões para adotar algum tipo de doutrina já fizeram uso de propaganda, assassinatos, terrorismos e revoluções para manter o poder. Ainda mais guerras, repressões brutais e perseguições sangrentas que mantiveram o mundo em agitação durante décadas. China, Rússia e adjacências filosóficas, para manter uma forma de Estado, causaram a morte de 100 milhões de pessoas.
Porque a Índia com uma população quatro vezes maior que a dos EUA têm um menor número de assassinatos? Poucos percebem que a paz e a guerra estão dentro de cada um. Cada indivíduo pode ter o Dalai Lama ou o Hugo Chávez dentro do seu interior. Buda, sozinho, em solidão, devotou-se aos problemas da exigência humana, procurou e espalhou a paz. Por outro lado, ''Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo'', Eu, Jesus Cristo, porém vos digo: ''Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam''. Quantos cristãos fazem isto? Acredito que se Cristo voltasse à terra ficaria chocado com muito do que foi feito em seu nome e horrorizado com as lutas sangrentas entre os povos que se dizem seus seguidores.
George Bush já apareceu na TV coladinho e fazendo reverências ao Papa, mas atacou o Iraque pelo petróleo, alegando armas de destruição em massa que nunca existiram. Bush é cristão. Será? É estranho, mas uma vez, um pacifista disse: ''Não tenho nada a oferecer a não ser sangue, esforço, suor e lágrimas''. Era Winston Churchill, buscando a paz e se defendendo da guerra de Hitler, que buscava a estratégia de purificação racial pelo holocausto e tentava invadir a Inglaterra. Deveríamos ficar com Ghandi que sempre será o símbolo da resistência sem violência à repressão política e social, mas olhamos em volta e só vemos a guerra.
NÉLIO ROBERTO DOS REIS é professor universitário em Londrina
Vale tudo pelo poder
Walter Costa Barroso
''Ponha-se na Presidência da República qualquer medíocre, louco ou semi-analfabeto e vinte e quatro horas depois, a horda de aduladores estará à sua volta, brandindo o elogio como arma, convencendo-o de que é gênio político e um grande homem e de que tudo que faz está certo. Em pouco tempo transforma-se um ignorante em um sábio, um louco em um gênio equilibrado, um primário em um estadista. E um homem nessa posição, empunhando as rédeas de um poder praticamente sem limites, embriagado pela bajulação, transforma-se num monstro perigoso.''
O texto brilhante e atual exposto acima é de autoria do general Mourão Filho, isto mesmo, aquele mesmo general truculento que partiu na madrugada de 31 de março de Juiz de Fora (MG) em direção ao Rio de Janeiro precipitando o Golpe Militar que derrubou o então presidente João Goulart.
Espalhados principalmente em países subdesenvolvidos, mandatários chegam ao poder pelas mais variadas fórmulas de condutas democráticas arcaicas e viciadas. No Brasil não é diferente e esta advertência do velho golpista general não serve só para presidentes eleitos, mas sim para qualquer cidadão que tenha vocação e determinação de chegar ao poder.
Nas democracias modernas muitos países já reformularam conceitos e reformas políticas capazes de evitar que verdadeiras corporações políticas, nem sempre probas, assumam o poder com apetites escusos. Na Suíça, por exemplo, quase tudo é resolvido por consultas populares (plebiscitos). As eleições acontecem sem obrigatoriedade de voto, vota-se pelo correio, em tempo preestabelecido.
No Brasil já começou o vale tudo pelas próximas eleições. O presidente Lula investe contra as oposições e determina que todas as alianças para esmagá-las sejam válidas. O Poder Judiciário e a imprensa são sempre os culpados pelas mazelas. O poder fascina, mas também cega os homens. Para chegar lá tudo é aceito, só não pode perder as eleições.
Será que o texto do general nos deixa algum ensinamento? Até quando teremos que esperar por uma reforma política eleitoral decente?
WALTER COSTA BARROSO é cirurgião dentista em Londrina
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