ESPAÇO ABERTO
Imin 100: uma justa homenagem
Toramatu Tanaka
Muito tem sido propalado a respeito da festividade relativa à comemoração dos cem anos da imigração japonesa no Brasil. Neste contexto, releva notar a valiosa contribuição deixada pelos imigrantes japoneses ao longo de um século, de tal sorte que hoje incontáveis são os brasileiros descendentes de origem nipônica que contribuem com suas atividades laborativas para a consecução e obtenção de uma sociedade mais justa, harmoniosa e um Estado de bem-estar social (Welfare State).
No início do século XX, em virtude de o Japão encontrar-se em uma crise econômica, milhares de japoneses, atraídos pela propaganda ali lançada pelos fazendeiros brasileiros que necessitavam de mão-de-obra, sobretudo nas lavouras cafeeiras, decidiram rumar para o Brasil, sem conhecer o seu povo, a sua língua, sem qualquer recurso financeiro. Vindo aqui, trabalharam de sol a sol, sob o jugo de capatazes da fazenda, enfrentando ainda os percalços decorrentes da diferença cultural. Todavia, em nenhum instante lhes faltou o ânimo de lutar na conquista de um lugar ao sol. Nesse sentido, respeitando as leis e regras locais, com seriedade, muitas vezes com privação e renúncia, dedicaram-se de corpo e alma ao trabalho, à educação de seus filhos e à obtenção de um porvir mais risonho, guardando as pequenas economias obtidas às duras penas para aquisição de bens duráveis e produtivos.
O legado por eles deixado, alicerçado na seriedade, honestidade, trabalho, educação e poupança, se traduz nos valores morais que dignificam não apenas os que aqui imigraram, mas sobretudo, os seus herdeiros e descendentes, hoje integrados no seio da sociedade, em todos os quadrantes do Brasil. A lição que deles devemos assimilar é no sentido de que somente respeitando as leis, com educação, trabalho honesto, seriedade e espírito de poupança poderemos atingir a plenitude de desenvolvimento econômico e social, rompendo a barreira do terceiro mundo, não bastando apenas prodigalizar benesses e sinecuras aos carentes à semelhança de certos programas governamentais de hoje.
TORAMATU TANAKA é juiz de direito aposentado e advogado em Londrina
Estragos da mente coletiva
Walmor Macarini
Ao que parece, a humanidade precisa alimentar-se das desgraças humanas, porque dá tanta importância quando elas acontecem e é capaz de assumir posições de ódio que tornam o clima tão denso e amedrontador quanto o fato que lhes deu origem. Os veículos de comunicação andam no mesmo compasso, não se sabendo se o fazem porque o público aprecia, ou se o público aprecia porque os fatos são divulgados. Esta pergunta sempre buscou resposta nas Redações, mas nunca se chegou a um consenso.
Agora é a tragédia da menina lançada do alto do edifício, que se transforma em carro-chefe do noticiário, porque em jornalismo existe a obrigatoriedade imposta pelo sistema de seguir a pauta da continuidade, e o público postado diante desse palco de sombrios espetáculos quer saber da seqüência. Parece que há uma necessidade orgânica dessa ração diária de informações. O mal é que muitos, podendo-se dizer a maioria, ficam impregnados de ira pela brutalidade que seres humanos cometem e se convertem em julgadores, desejosos de aplicar as mais cruéis penalidades aos culpados e sequiosos de fazer justiça pelas próprias mãos. Se eles pudessem ser livres de punição, o fariam, dessa forma comportando-se como aqueles que praticam brutalidades como o caso citado e outros semelhantes. O ardor raivoso por punição tem a mesma intensidade dolosa do delito.
Estas coisas são muito ruins (os crimes hediondos e os coadjuvantes que geram a corrente coletiva de revolta) porque criam uma atmosfera densa e asfixiante. As emanações que irradiam são capazes de provocar um encadeamento de tragédias da mesma natureza ou afins. Assim, tudo o que de bom se constrói por via das orações e das manifestações em favor da paz se dilui por essa reversão brusca das mentes e sentimentos humanos, envenenados pelo desejo mórbido de vingança.
Não é este o melhor caminho, senão o de diminuir a intensidade do noticiário e das tensões. Não é a indiferença que se prega mas a responsabilidade de comportamento de cada um, porque quanto mais se divulga um fato e quanto mais o inconsciente coletivo se ocupa dele, mais ele tenderá a repetir-se. Portanto, encarar a realidade sem formulação de juízo punidor e nem ódio, para que as coisas não fiquem piores. A Terra é um ponto do Universo destinado a grandes obras de redenção mas também de dolorosos acontecimentos e provações. O momento requer muita oração. Por todos, inclusive pelos algozes, porque esses desafortunados são também dignos de compaixão.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA





