O título é sugestivo. Mas o texto não pretende descrever somente comportamentos de nós, seres humanos. Pretendo apenas abrir um pequeno espaço de reflexão. Devo salientar que chamo de ''loucura nossa de cada dia'' certos hábitos, costumes e relações pessoais que de certa forma estão sendo incentivados e elogiados no momento. Há algum tempo tenho observado o quão difícil está para se viver bem em meio a tantas exigências que a vida contemporânea nos traz, solicitando-nos ''sacrifícios'' aos quais temos que nos submeter. São situações cotidianas que nos atravessam e que nem paramos para pensar, passando despercebidas.

A vida hoje nos coloca frente a um mundo movido pela lógica mercantilista, de modo a proporcionar às pessoas idéias falsas de felicidade plena, onde o desejo está acima do limite, do pensar e, portanto, do bom senso. No cenário sem limite observamos pessoas e, principalmente adolescentes - sejam eles de 15 ou ''50'' anos - agindo impulsivamente para alcançar a sonhada perfeição do bem-estar físico, psíquico e social. É curioso que frequentemente estas formas impulsivas de agir são elogiadas pelo grande público ou pelo grupo ao qual a pessoa pertence. Promessas veiculadas em todos os lugares como revistas, rádios e televisão, propagam soluções milagrosas para o que queremos. Atingem de forma mágica nossas cabeças com comerciais de xampus que deixam os cabelos da forma idealizada que tanto queremos; cervejas tão saborosas capazes de atrair o sexo oposto com o intuito de mimar o ego carente de sentido.

Desse modo, os dispostos a se doarem plenamente ao modelo vigente, capazes de se ''sacrificarem'' para obter o tão sonhado sucesso, estão contribuindo para montar no imaginário coletivo a figura do ''louco'', do ''maluco'', do ''vida loca'' entre outros termos comumente usados. Diferentemente do ''malandro'' - geralmente associado ao boêmio que perambulava pelos bares bebendo, cantando e galanteando as mulheres - o ''vida loca'' vai além de beber e cantar em bares. Desprovido de senso de limite, não muito raramente ouvimos notícias de pessoas internadas depois de beber, dançar e se drogar dois dias ininterruptamente. Quem nunca viu com olhos curiosos muros pichados com dizeres do tipo: ''vida loca'', ou ''vivendo a vida loca''?

Entendo ''o vida loca'' como uma das formas estereotipadas de viver hoje. O ''vida loca'', movido psiquicamente por esse processo mercantil atual, almeja a felicidade completa e o bem-estar próprio, tentando satisfazer por meio da vida desregrada seus desejos auto-referentes. Com isso, o ''vida loca'' consegue, de algum modo, se sentir bem por alguns momentos; adquire inúmeros amigos que querem um dia ser ''vida loca'', pelo fato de cobiçarem a felicidade que ''o vida loca'' no fundo não possui.

Outro exemplo dessa busca constante diz respeito aos empregos tão desejados hoje. As empresas mais almejadas têm como meta não o ''vida loca'', mas o outro lado da moeda, os trabalhadores hiperqualificados, jovens, solteiros, poliglotas, com disponibilidade para mudança, com vasta experiência profissional, ou seja, os hoje denominados workaholics. São requeridas enormes aptidões individuais ao passo que são deixados de lado outras qualidades importantes: a capacidade de manter vínculos afetivos, a capacidade de lidar bem com o outro e a capacidade de trocar experiências. Prova disso tudo são os costumes que estão sendo alterados a olho nu. Não é de hoje que ouvimos pessoas dizendo que não se respeita mais o próximo. Penso que a aptidão de respeitar e se colocar no lugar do outro é uma conquista, exigindo uma disposição emocional para isso - talvez possamos assegurar que o tempo atual não favoreça tal disposição. No entanto, trata-se não apenas de educar as pessoas a desenvolver e manter o respeito uns com os outros. Trata-se, além de tudo, de aprender a lidar com a nova realidade, onde todos são incentivados desde criança a pensar de forma competitiva, frequentemente colocando os limites e o respeito como meros espectadores das atitudes.

Em suma, penso que para conseguirmos viver bem temos que aprimorar nossa maneira de processar os eventuais problemas que nos cercam. Viver de forma mais harmoniosa com nossos defeitos, ter consciência de que não podemos ter ou ser tudo que queremos e que nossas companhias não são pessoas que porventura idealizamos são condições saudáveis para viver melhor e lidar bem com o outro. Para tanto, seria necessário abrir um espaço para pensar em tudo o que está sendo colocado como imperativo hoje.

WELINGTON GRISANTE é psicólogo em Londrina e Rolândia

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