Patologias religiosas
Dom Orlando Brandes


A necessidade do ecumenismo e ao mesmo tempo a irrupção da religiosidade nesta época pós-moderna, nos leva a refletir sobre algumas das tantas patologias religiosas. Fé, religião e Igreja são coisas diferentes. Hoje vamos refletir sobre a religião e três patologias.
1. O fundamentalismo que consiste em interpretar os escritos religiosos (Bíblia, Alcorão) ao pé da letra, numa visão conservadora e tradicionalista. O fundamentalismo gera fanatismo e impede uma interpretação adequada de um texto que é lido fora do contexto para defender um pretexto, um interesse, uma ideologia. O fundamentalismo dificulta o ecumenismo e gera guerras entre as religiões. O texto sagrado vira fetiche, tabu, ídolo intocável. Por isso, o Pai nos deu o Espírito para iluminar-nos na interpretação da Palavra de Deus. Além disso, temos o magistério, os teólogos e a iluminação interior dos fieis que muito ajudam na compreensão do livrei sagrado e sua interpretação. A letra mata, o espírito vivifica. O fundamentalismo é pedra de tropeço para o ecumenismo e para as religiões porque não se respeita a interpretação da letra, do texto.
2. O Proselitismo, patologia que usa de táticas e manobras para conquistar fiéis. A mentalidade proselitista condena os outros e serve-se de artimanhas para fazer propaganda religiosa. O proselitista coloca-se numa situação de vantagem religiosa, de superioridade, de triunfalismo e por outro lado, rebaixa, condena, ridiculariza os outros, os que não são do seu rebanho. Esta patologia religiosa divide famílias, promove brigas, aumenta distâncias. Muitas vezes os fiéis proselitistas agem em boa fé, mas hoje temos um proselitismo eletrônico, comercial, agressivo. O mal do proselitismo está em defender o grupo, a igreja e a religião, e acaba por ofender Deus, o evangelho e o reino. O proselitista atrasa e até impede o ecumenismo, porque condena as outras crenças e se faz dono da verdade.
3. O indiferentismo é uma outra patologia muito difusa em nossos dias. Consiste em afirmar que todas as religiões são iguais ou que elas são desnecessárias. Com isso a pessoa faz o que bem entende. Já que tudo é legal, busca-se a religião ou Igreja para vantagens pessoais ou simplesmente a religião é ignorada, abandonada. O indiferentismo não é o mesmo que liberdade religiosa, pelo contrario, é uma falta de identidade, de pertença e de filiação religiosa, uma falta de decisão e de compromisso comunitário. Já, a liberdade religiosa significa o direito que a pessoa humana tem de não ser impedida de manifestar sua fé, e o direito de não ser coagida a professar publicamente sua opção religiosa.
DOM ORLANDO BRANDES é Arcebispo de Londrina

Sobre a questão agrária no Brasil
Marcos Prochet


O teor do artigo ''A questão agrária no Brasil'' (Espaço Aberto, pág. 2, 11/04), do bacharel em História Vinícius Emanuel Rodrigues, demonstra a visão simplista e frágil com que nossos formandos são ''atirados'' ao mundo profissional. Ele afirma que ''a posse da terra está na mão de poucos latifundiários aristocráticos, escolhidos pela coroa portuguesa há 500 anos''. A verdade é que a esmagadora maioria das famílias dos produtores rurais atuais, tem menos de um século de história no Brasil, vindos como colonos imigrantes e, portanto, não podem nem passar perto da qualificação impingida pelo bacharel.
Como a posse da terra veio depois, obviamente existe algum anacronismo nessa história. Diz ainda o artigo que o homem ''civilizado'' tomou a terra dos nativos. Sem querer entrar na questão antropológica do progresso humano e lembrando que a residência do missivista também fica em terras anteriormente indígenas, só consideramos justa essa reclamação de quem planta suas próprias vitaminas e caça suas proteínas. Caso faça compras em supermercados estará abalizando o agronegócio.
Discorre ainda o artigo sobre a má distribuição de terras no País. Eis alguns números interessantes para o formando em História: o Brasil possui mais de 5 milhões de propriedades rurais, mais que o dobro dos EUA, Argentina e Austrália juntos; no Brasil quase 4% da população é proprietária rural, contra menos de 2% dos EUA; desde 1920 até hoje, os EUA diminuíram de 6,4 para 2,1 milhões a quantidade de suas propriedades rurais e aumentaram sua produtividade em 19,78 vezes; o custo de um assentado pelo Estado no Brasil é de 157,63 salários mínimos, ou seja, 13,14 anos; a área plantada de grãos no Brasil é de aproximadamente 50 milhões de hectares e já foram dados ao MST mais de 25 milhões de hectares e nada aconteceu de produtivo. Enfatizando que o agronegócio engloba todos os produtores rurais, independente do tamanho, e que representamos 40% dos empregos do país (diretos e indiretos), 1/3 do PIB nacional e 42% da balança comercial brasileira, não deveríamos ser criticados por experts em teorias.
MARCOS PROCHET é produtor rural em Londrina

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