ESPAÇO ABERTO
Educação em debate
Luiz Carlos Paixão da Rocha
Apesar do consenso subjetivo presente na sociedade de que a educação é fundamental para o desenvolvimento do País, a mídia nacional pouco discute a relação valorização dos profissionais de educação, as condições de trabalho e a qualidade de educação. No entanto, estranhamente o tema ocupou, no início deste ano, espaços importantes na pauta da imprensa. A própria FOLHA DE LONDRINA publicou, nas edições do dia 13 e 14/02, dois editoriais: ''Professor melhora com o pagamento por mérito'' e ''Mérito ao bom professor: exemplo a seguir''.
Esta onda midiática, aparentemente tem origem nas declarações dadas pela secretária de Educação de São Paulo, Maria Helena de Castro à revista ''Veja'', na edição de 13/02. Na entrevista ''Premiar o mérito'', a secretária afirma: ''A velha política de isonomia salarial contribui para a acomodação dos professores numa zona de mediocridade''. Partindo deste entendimento, a secretária ''criou'' um sistema de condicionamento da ampliação de salários dos professores e funcionários à melhoria dos índices de aprovação e evasão dos estudantes de cada escola. A questão é que, mais uma vez, a responsabilidade pela melhoria da qualidade da educação é lançada sobre a figura única do ''solitário educador''.
Os educadores que, historicamente, têm dado o sangue e a vida pela causa da educação estão cansados das soluções ''fast food''. Como na vida, a educação é um processo contínuo e complexo. Sendo assim, beira a certo oportunismo, mais uma vez, transformar nossos educadores em bodes expiratórios.
O sistema apresentado pela própria FOLHA DE LONDRINA: ''Modelo de São Paulo pode ser adotado no Paraná'' não é novo. As idéias da secretária compõem uma determinada concepção e projeto de organização da sociedade - o neoliberalismo que tem como um dos seus objetivos a redução da intervenção do Estado nas políticas sociais. Não precisamos ir muito longe para perceber isto. Em seu auge, no país e no Paraná (anos FHC e Lerner), o número de escolas particulares cresceu de forma assustadora (do maternal à universidade). Este bem público (a educação) esteve muito próximo de ser regulado pelos interesses do mercado capitalista.
Para atingir esta meta, os neoliberais difundem a idéia de que melhores condições de trabalho e salários não interferem na qualidade da educação e de que os movimentos organizados dos educadores são meramente corporativos. Estes e as ''carreiras meramente burocráticas'' seriam um empecilho para a educação. Uma visão míope, pois os sindicatos sempre estiveram comprometidos com a qualidade da educação.
Não nos isentamos da nossa responsabilidade profissional. No entanto, queremos uma avaliação que tenha em vista a promoção da educação e não a punição dos educadores. Uma avaliação que considere outros fatores determinantes da complexidade do sistema educacional, entre eles: os investimentos do Estado, as condições de trabalho, o número de alunos por turma, a gestão democrática, a formação e a valorização dos educadores, os conteúdos ensinados, e o contexto social em que a escola está inserida.
Ao contrário do que comentava o editorial da FOLHA (''Modelo de São Paulo pode ser adotado no Paraná''), afirmo que este modelo foi aqui parcialmente implementado durante o período Lerner. Envolto pelo discurso da modernidade, o governo da época fechou nossos cursos profissionalizantes, os cursos de magistério, a oferta do ensino regular fundamental noturno, reduziu a matriz curricular e iniciou um processo de terceirização de professores e funcionários. As promoções na carreira foram suspensas e os professores que desenvolviam algum projeto especial recebiam um vale de R$ 100,00, o chamado ''Vale-Saber''. Pergunto: naquele período a educação do Paraná ficou melhor? O ousado modelo adotado por São Paulo certamente não nos serve.
LUIZ CARLOS PAIXÃO DA ROCHA é mestre em educação, professor da rede estadual e secretário de imprensa e divulgação da APP-Sindicato em Curitiba





