ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de março de 2008
Dom Orlando Brandes 
Amor misericordioso de Deus anula o mal, recria e refaz o pecador
O Papa João Paulo II proclamou o 2º domingo de Páscoa de ''Dia da Misericórdia - Domingo da Misericórdia''. Menos mal. Depois de tanta guerra e violência, a misericórdia ressurge como caminho de fraternidade. Onde reina misericórdia, ali está o reino da solidariedade, a civilização do amor, a cultura do perdão, ali os pobres serão saciados e os inimigos se abraçarão. Na Palavra de Deus a misericórdia abrange o perdão das ofensas e a sensibilidade fraterna. Portanto, atinge a raiz e as causas da violência.
O amor misericordioso de Deus é mais admirável que seu amor criador. É a misericórdia que anula o mal e recria, recupera, refaz o pecador. A misericórdia é criativa e regeneradora. Na língua latina, significa ''amor do coração'', ou seja, colocar o coração sobre a miséria pessoal e alheia, com carinho materno, regenerar as vítimas da miséria e anular a ofensa dos inimigos. Perdão e solidariedade sintetizam a essência da misericórdia, sem esquecer que a paciência é misericordiosa.
É bom não confundir misericórdia com permissividade e muito menos como sentimento de pena, dó, emotividade. A misericórdia é sim carinhosa, mas exigente. Ninguém deve atirar-se no pecado, só porque sabe que Deus é misericordioso. Pior, há quem não observa as exigências do evangelho e da igreja, apelando para a misericórdia. Até a eutanásia, ou seja, a morte provocada, de pessoas idosas e em estado irreversível, é justificada como atitude de misericórdia. Mata-se por misericórdia. Vemos assim que se pode abusar da misericórdia. Não podemos pecar para provocar a misericórdia divina.
A verdade é que as páginas mais tocantes do evangelho são as da misericórdia como: a do pai do filho pródigo, a da ovelha perdida, a da samaritana junto ao poço de Jacó, a da mulher adúltera, a das lágrimas de Jesus pela morte de Lázaro, a da compaixão pelo povo faminto e a multiplicação dos pães, a das palavras: ''Pai perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem'' e tantas outras. É a misericórdia que nos livra do desespero e da loucura. Nossa esperança de salvação ancora-se no abismo oceânico da misericórdia, pelo abraço do Pai e pelo calor do coração do Filho, recuperamos o vigor apostólico, o gosto de viver e nossa auto-estima. Subsistimos graças à misericórdia sempre nova e infinita de nosso Deus.
Misericórdia enfim é erguer os caídos, compreender os que erram, adaptar-se às circunstâncias, respeitar as diferenças e as etapas da vida das pessoas, caminhar no ritmo do coração humano, fazer companhia aos decaídos, consolar os aflitos, encorajar os tímidos, corrigir os desviados e desordenados, entrar nos hospitais e prisões, abraçar e acolher aidéticos, bêbados, drogados, prostituídos, não decepcionar-se com ninguém, ser cortês com os ingratos, injustos e complexados. A misericórdia é o amor sem limites, que mereceu uma bem-aventurança (Mt. 5,7), uma carta papal (Deus é rico em misericordia) e vários salmos bíblicos.
Queremos ser a ''igreja da misericórdia'' com o mutirão do combate à fome; com a pastoral da consolação e da esperança nas casas, velórios e cemitérios; com o acolhimento dos casais em 2 união; com o acolhimento das pessoas através de um rosto alegre, de um aperto de mão, de um abraço, porque a misericórdia se faz gesto. Passaremos a eternidade cantando as misericórdias do Senhor.
A misericórdia desce degraus mais abaixo do que a miséria. Nossa sociedade tão ferida pela violência e pela fome, nossas famílias desestruturadas pela mágoa, raiva, agressão, encontram na misericórdia uma luz e ao mesmo tempo uma resposta. Ela põe limites ao mal, melhor ainda, é a vitória sobre o mal, porque a misericórdia é sinônimo de compaixão e de sensibilidade humana.
O evangelho e a fé oferecem critérios para a construção de uma sociedade diferente, nova e fraterna. O império do mal será superado pela civilização do amor, pela onipotência da misericórdia.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


