ESPAÇO ABERTO
A nossa difícil modernidade sindical
Ariovaldo Santos
O artigo O fim da demissão sem justa causa (Espaço Aberto, pág. 2, 19/03), do advogado George Ricardo Mazuchowski, abordando a ratificação, pelo governo brasileiro da Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), dispondo sobre demissão sem justa causa, levanta um grande tema para debate. Sobretudo porque tramita no Congresso, texto sobre a Reforma Trabalhista e Sindical, produzido pelo Fórum Nacional do Trabalho e projetos de modernização da CLT.
Suspensa desde o governo Fernando Henrique, a adoção da Convenção retorna, segundo o advogado, por pressão das entidades sindicais. E, indaga, se o fim da demissão sem justa causa seria um progresso ou retrocesso nas relações de trabalho. Assim, ao tratar desse modo a questão, o advogado, abandona o plano do Direito do trabalho, para refletir em termos de custos empresariais, assunto pertinente a um gestor. Daí que conclui: É muita ingenuidade acreditar que a Convenção não trará problemas aos empregadores, e dedica o restante do artigo a expor as conseqüências para os empresários.
Entretanto, se ingenuidade existe, ela está em crer que é possível construir relações de trabalho fortes e democráticas, onde o direito social se subordine ao interesse econômico imediato. Além disso, a aplicação das Convenções da OIT é prática em diversos países do capitalismo avançado, sem que isto tenha colocado em cheque a existência do próprio capitalismo.
Os estudos no campo do trabalho demonstram que a adoção de políticas classificadas como neoliberais produzem o afastamento em relação às diretivas da OIT e, como resultado geral, os empregos se tornaram mais instáveis, precários, aumentou o estresse entre os trabalhadores, submetidos a uma contínua situação de pressão, e, também, o assédio moral, morte súbita e, mesmo, suicídios de trabalhadores.
Da discussão, emerge outro problema, isto é, o da nossa modernidade seletiva. O mesmo patronato que insiste em citar o capitalismo avançado como referência para justificar a adoção de mudanças organizacionais e tecnológicas, resiste à implementação dos direitos no campo do trabalho. Exemplo disso é a resistência patronal à implantação das Comissões de Empresa, comuns no capitalismo avançado e consideradas ingerência na propriedade privada e direito aos negócios, no Brasil. Assim, é hora de se fazer, também, um choque de mentalidade, sem o que a questão social, que já foi considerada por Washington Luis como caso de polícia, passará a ser tratada, apenas, como um caso de gestão.
ARIOVALDO SANTOS é professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina
Organizações preferem cordeirinhos
Adalberto Brandalize
Tenho observado um comportamento na maioria das organizações que é curioso e controverso ao mesmo tempo. Boa parte das organizações em seus recrutamentos e treinamentos alardeiam que querem funcionários pró-ativos, participativos e com iniciativa. Na realidade, quando um de seus colaboradores começa a se destacar apresentando projetos e idéias novas, em pouco tempo, é excluído devido à ciumeira e incompetência da organização em enxergar um talento e ao sistema impregnado em sua cultura conservadora e que não se inova, bem como o medo dos antigos de inovar e mudar uma realidade.
Conclui-se que dizem querer lobos (capazes de mudar a realidade), quando na realidade preferem os cordeirinhos (que dizem amém a tudo e são indiferentes às mudanças). É evidente que esta empresa num futuro bem próximo pagará caro por isso. Mas esta constatação fica encoberta pela cortina de fumaça levantada pelos encarregados, acomodados e desatualizados e pelas lideranças que se acovardam frente à nova realidade empresarial. Toda organização deve se transformar e ser capaz de mudar sua realidade rapidamente para adaptar-se a um mercado cada vez mais exigente e ávido por qualidade. Porém, a realidade nua e crua é que a maioria dos talentos é desperdiçada devido à mediocridade e comodidade de chefes que deveriam ser gestores valorizando a iniciativa, a criatividade e o questionamento constante de propósitos empresariais.
A mudança deste tipo de comportamento deve passar por uma reciclagem que começa pelos executivos do topo da pirâmide até os encarregados na base da mesma. Nos Estados Unidos, o governo gasta mais para reciclar executivos que para formar. Quanto gasta o governo brasileiro? Existe uma grande diferença no que dizem querer fazer ou acreditam fazer, com o que fazem na realidade. É um jogo de enganação que os garante por um tempo no poder. Porém, o futuro não perdoa estes erros e toda organização pagará com a perda de competitividade, declínio e provável extinção. Por hora, os cordeirinhos são mansos e fáceis de controlar, mas os lobos são inquietos e questionadores, portanto, exigem competência e eficácia das chefias.
ADALBERTO BRANDALIZE é professor e consultor empresarial em Londrina





