ESPAÇO ABERTO
Páscoa e transparência
Inês Wolff
Dizem que o mundo e as pessoas estão em constante mudança. Ora para melhor, ora para pior. Vivemos esperando que as coisas que nos afetam diretamente mudem para melhor. Viver esperando é parte do problema. Esperança sem ação não transforma nada. Pelo contrário, converte-se em frustração. Esperança é espera, mas também é luta, movimento. Muitas vezes, preferimos ignorá-la, em troca de conforto e segurança. Eliminamos a esperança, frustramos a mudança! Passamos muito tempo ocupados com nosso próprio umbigo, esperando. Esperando que um dia, quem sabe, de algum jeito, por meio de alguém, algo mude.
Enquanto continuarmos achando que a corrupção e a injustiça são acontecimentos pequenos, que fazem parte do nosso dia a dia, marginalmente necessárias como o tal lado certo da vida errada do Comando Vermelho, ficaremos todos sobressaltados e revoltados quando elas acontecerem conosco ou ao nosso lado. O combate à corrupção além de uma demanda da sociedade, é uma necessidade para a melhoria dos nossos padrões éticos, sociais e econômicos. Por isso o combate à corrupção e a necessidade de transparência exigem o envolvimento de vários órgãos e poderes, mas também e principalmente, dos indivíduos.
Os valores e o comportamento ético tão exaltados nas rodinhas de conversa, devem ser coerentemente inseridos no comportamento diário do cidadão, uma vez que os atos de corrupção e injustiça não estão restritos à esfera dos políticos ou dos partidos. A corrupção pode ocorrer em várias situações do cotidiano: colar em provas, comprar produtos piratas, subornar um funcionário público, um guarda de trânsito. Claro que fatos como esses podem ser classificados como micro, comparados aos grandes esquemas de corrupção política. No entanto, se generalizadas e toleradas, acabam por legitimar a macrocorrupção que tanto nos choca ainda.
Assim, a tarefa da Transparência Londrina que, no próximo dia 27, realiza mais um encontro, às 19h45, no auditório do Hospital Evangélico, será pouco eficaz sem a vital participação da sociedade organizada, com ações de efetiva mobilização e participação social para o controle dos atos da administração municipal. Neste contexto, também é possível resgatar o sentido da Páscoa. Não somente como Igreja, mas para a sociedade onde estamos inseridos: passar da escravidão imposta pelas mentiras, injustiças e corrupção, para a liberdade presenteada pela verdade.
INÊS WOLFF é nutricionista em Londrina
Ética: um Simca atrapalhando o tráfego
Agnaldo Kupper
Ninguém, na democracia, pode se identificar com o poder, já que o mesmo será exercido por quem for escolhido para tal. Na democracia imaginada, o poder é transitório. E é na rotatividade que se percebe o quanto é difícil executar e legislar. Na democracia contemporânea, os mais privilegiados garantem lugar, pois não se é eleito sem o poder do dinheiro. Na busca da manutenção do poder obtido, o mesmo é usado para a obtenção de mais moedas. Mantém-se o enredo. A própria sociedade, pelo valor que dá ao dinheiro, revestindo-o de poder, sustenta o vício.
Falamos, há tempos, em ética. Ética é algo que vem de dentro. É sentida. A pessoa não nasce ética, desenvolve-se como, em uma relação entre o que o coração diz e o que a cabeça pensa. Onde quero chegar? Londrina, há muito, tem sido vítima de escândalos políticos. Seja no Executivo, seja no Legislativo e, mesmo que não escancaradamente quanto nos atestou episódio nacional recente, no Judiciário. E por que não corrigimos nossas posturas após tantos exemplos ruins? Talvez porque não sejamos, na maioria, cidadãos tão éticos. Como exigir ética na política se não somos tão éticos assim? Por que ronda na cabeça de muitos eleitores o desejo da volta de um certo ex-prefeito afastado por denúncias de atos de corrupção? Outro dia ouvi de um funcionário público municipal que mesmo roubando ele nos dava o aumento salarial a que sempre tivemos direito. Só posso entender este pensamento como dê o meu e faça o que quiser.
Fere-me ver uma cidade com ex-deputado federal aposentado como um dos pilares do mensalão. Fere-me ver uma Câmara Municipal com membros que pregam o toma lá, da cá (parece-me impossível que os mais éticos da Casa não soubessem da prática; parece-me impossível que o Executivo sancionasse com isenção e inocência). Fere-me observar o descaso dos escolhidos para os mandatos, jogando fora oportunidades de atuação em prol da população por apenas valorizar interesses pessoais. A cada escândalo, procuramos renovar pelo voto, como nos dando mais uma chance de acerto. Antes do voto, a renovação deve ser pessoal. Londrina teve na década de 1990 a chance de enraizar mecanismos que apurassem sua democracia. Conselhos populares, orçamento participativo, gabinete aberto, diálogos com funcionários públicos (por vezes difíceis), sendo tais mecanismos enterrados por aqueles que preferem o governo pessoal aliado às negociações suspeitas com o Legislativo. Como se esta fosse a fórmula única de se fazer política. Aproximamo-nos de mais uma etapa da dita rotatividade democrática. Elegeremos representantes. Que vingue a sensibilidade, o exercício do poder de voto não alienado, a reflexão pessoal e a visão de que política se faz e não apenas se delega.
AGNALDO KUPPER é professor de ensino médio, pré-vestibulares e ensino superior em Londrina
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